Posts Tagged ‘espuma

30
Ago
11

Escrito no muro

Procura a maravilha.

 

Onde a luz coalha

e cessa o exílio.

 

Nos ombros, no dorso,

nos flancos suados.

 

Onde um beijo sabe

a barcos e bruma.

 

Ou a sombra espessa.

 

Na laranja aberta

à língua do vento.

 

No brilho redondo

e jovem dos joelhos.

 

Na noite inclinada

de melancolia.

 

Procura.

 

Procura a maravilha.


In: Obscuro Domínio (1972)

06
Jul
11

As nascentes da ternura

1

No espaço de um relâmpago

os olhos reflectem os navios.

 

2

O silêncio brilha acariciado.

 

3

O silêncio é de todos os rumores

o mais próximo da nascente.

 

4

Só água era, e sem memória.

 

5

Claridade sem repouso, ó claridade,

aguda nos juncos, nas pedras rasa.

 

6

É no ardor dos cardos

que o vento faz a casa.

 

7

Da pedra à cal, do sal à espuma,

amo a pobreza e a brancura.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

28
Mar
09

Sobre a mesa a fruta arde

Sobre a mesa a fruta arde: pêras,

laranjas, maçãs, pressentem

a íntima brancura

dos dentes, o desejo represado,

 

o espesso vinho de vozes antigas;

arde a melancolia ao inventar

outra cidade,

outro país, outros céus onde lançar

 

os olhos e o riso: deita-te comigo,

trago-te do mar

a crespa luz da espuma,

nos flancos este amor retido.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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