Posts Tagged ‘estrela

04
Jan
11

Em forma de estrela

Vi-te levantar os braços para a culminação da noite, beber em silêncio nas águas da demência sem poder acudir-te, sem conseguir inclinar-te para o esplendor das areias de junho, perguntando-me para que servem as mãos se até do jeito de partir o pão se haviam esquecido, ou de governar o arado, ou de erguer uma criança para a oferecer ao sol, as árvores à roda curiosamente dispostas em forma de estrela.

In: Memória Doutro Rio (1978)

22
Jun
10

Canção da mãe de um soldado de partida para a Bósnia

É muito jovem, sem tempo ainda

de ser triste. Demora-se nos meus olhos

enquanto leva a maçã à boca.

Nenhuma fala obscura escurece a tarde,

a cabeleira solta é a sua bandeira;

os pés brancos, irmãos

da chuva de verão, anunciam a paz.

Suplico à estrela da manhã

que lhe guie os passos, agora que partiu;

que tenha em conta a sua ignorância,

não só da morte, também da vida.

28
Dez
09

Julguei que não voltaria a falar

Julguei que não voltaria a falar
desse verão onde o sol se escondia
entre a nudez
dos rapazes e a água feliz.

Imagens que já não doem
– risos, corridas, a brancura dos dentes,
ou a matutina estrela
ardendo no centro da nossa carne –

chegaram com a neve, tão rara
nestas paragens,
e como pousa a poeira,
sentaram-se ao lume vagarosas.

Aí estiveram, escutando o que traz
o vento. Até anoitecer.
22
Abr
09

Com essa nuvem

Para que estrela estás crescendo,

filho, para que estrela matutina?

Diz-me, diz-me ao ouvido,

se é tempo ainda,

eu e essa nuvem, essa nuvem alta,

de irmos contigo.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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