Posts Tagged ‘Fernando Pessoa

13
Jun
13

8º Aniversário do desaparecimento de Eugénio

Eugénio de Andrade partiu com as aves há precisamente 8 anos. Outro poeta português desapareceu nesse mesmo dia 13 – Al Berto – ao passo que outro, há precisamente 125 anos, havia de nascer eterno – Fernando Pessoa.

Hoje reúnem-se novamente no Sal da Língua, na companhia de Eugénio.

Pela minha parte, quero agradecer as mais de 76000 visitas que o Sal da Língua já teve ao longo dos seus já cinco anos de existência. A missão renova-se, prestar homenagem à escrita luminosa de Eugénio de Andrade através da divulgação da sua vasta poesia e prosa. E o resto é vosso.

Ofício de Amar (Al Berto)

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras
[galáxias, e
[o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Autopsicografia (Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira a entreter a razão,

Esse comboio de corda

que se chama o coração.

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04
Mar
12

Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa…

Este fim-de-semana fui finalmente à Gulbenkian para ver a exposição Fernando Pessoa, Plural Como o Universo. E que prazer é reencontrar as palavras de Pessoa, Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos de uma forma tão apelativa e que tão facilmente transformamos num momento de intimidade, só nosso, com uma obra que nos lê de uma forma tão completa..

Esta exposição permite-nos reencontrar as palavras mas também o homem Fernando António Nogueira Pessoa, o seu percurso, a sua história familiar, a sua personagem multifacetada e a sua forma plural de olhar o mundo e a realidade que resultou numa obra poética universal.

O Sal da Língua presta assim uma homenagem sentida à poesia património de Fernando Pessoa deixando, como não podia deixar de ser, as suas palavras:

 

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo…

Alberto Caeiro

 

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

 

Em jeito de apontamento…

E uma vez que falamos de Pessoa, o Sal da Língua sugere um blogue divertidíssimo chamado “Pessoa para todas as ocasiões“, da autoria de Maria Filomena e Fernando Gouveia, onde Pessoa é citado a propósito de efemérides, estados de espírito, apontamentos do quotidiano ou, simplesmente, sensações.

08
Fev
12

O Sal da Língua sugere…Pessoa na Gulbenkian

O Sal da Língua sugere a exposição “Fernando Pessoa, Plural como o Universo“, uma exposição dedicada a Fernando Pessoa e seus heterónimos e que estará patente, a partir do dia 10 de Fevereiro, na Fundação Calouste Gulbenkian.

Esta exposição, com curadoria de Carlos Felipe Moisés e Richard Zenith, pretende mostrar toda a multiplicidade da obra de Pessoa, apresentando um espaço repleto de poemas, textos, documentos, fotografias e pintura, onde se incluem raridades como a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.
 

De 10 Fev 2012 a 30 Abr 2012
Das 10:00 às 18:00
Encerra Segunda-feira e domingo de Páscoa
Edifício Sede

Entrada: €4

13
Jun
11

O Sal da Língua sugere…iniciativas em torno de Eugénio, Pessoa e Al Berto

O Sal da Língua sugere…

A apresentação do ensaio de Federico Bertolazzi sobre o pensamento estético e a poética de Eugénio de Andrade –  “Noite e Dia da Mesma Luz”. Amanhã, dia 14, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, às 18h30. A apresentação estará a cargo de Fernando J.B. Martinho e será projectada uma vídeo-antologia de Eugénio de Andrade em que o poeta lê os seus poemas.

A realização do curso “Os livros esotéricos de Fernando Pessoa“. O curso sobre Fernando Pessoa será coordenado por José Manuel Anes e leccionado no auditório da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, entre as 18h30 e as 20h30, nos dias 20 e 27 de Junho e 4, 11, 18 e 25 de Julho de 2010.  curso, com vagas limitadas (80) tem uma “propina” de 40 euros, incluindo visita guiada à Quinta da Regaleira. A inscrição deve ser feita na Casa Fernando Pessoa, até 15 de Junho. No final do curso será entregue um diploma de participação.

 

O espectáculo de homenagem a Al Berto com o nome “Moradas do Silêncio”, integrado no Festival Silêncio e que terá lugar no Cinema São Jorge, em Lisboa, no dia 25 de Junho às 22h00. Sérgio Godinho, JP Simões, João Peste, Rui Reininho, Noiserv e Miguel Borges juntam-se para uma homenagem a Al Berto num espectáculo único e irrepetível. Em “Moradas do Silêncio” cada artista é convidado a apresentar três temas inspirados na obra do poeta ou relacionados com o imaginário da sua escrita. Neste espectáculo transdisciplinar cada intervenção será precedida por curtos interlúdios em que, sob texturas musicais de Noiserv, serão declamados poemas seleccionados pelo escritor Nuno Júdice. O vídeo será de João Pedro Gomes sobre imagens e fotografias do poeta, manipuladas por Tó Trips (Mackintóxico). A banda suporte será constituída por quatro elementos dos Rádio Macau: Flak, Filipe Valentim, Samuel Palitos e Alex Cortez.

13
Jun
11

6º Aniversário da morte de Eugénio

Eugénio de Andrade deu o corpo à terra há precisamente 6 anos. Outro corpo volveu à terra no mesmo dia do mesmo ano, o do escritor Manuel Tiago/Álvaro Cunhal.

Outro poeta português viria a sucumbir nesse mesmo dia 13 – Al Berto – ao passo que outro, décadas antes, havia de nascer eterno – Fernando Pessoa.

Hoje reunem-se todos na companhia de Eugénio.

 

Descer pela manhã até à folha, de Eugénio de Andrade

Descer pela manhã até à folha

dos álamos,

ser irmão duma estrela, ou filho,

ou talvez pai um dia doutra luz de seda,

 

ignorar as águas do meu nome,

as secretas bodas do olhar,

os cardos e os lábios da sede,

não saber

 

como se morre de tanto ser hesitação,

de tanto desejar

ser chama, arder assim de estrela

em estrela,

 

até ao fim.

 

In: Eugénio de Andrade. Branco no Branco.Editora Limiar

 
 

Incêndio, de Al Berto

se conseguires entrar em casa e

alguém estiver em fogo na tua cama

e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho

e do tecto cair uma chuva brilhante

contínua e miudinha – não te assustes

 

são os teus antepassados que por um momento

se levantaram da inércia dos séculos e vêm

visitar-te

 

diz-lhes que vives junto ao mar onde

zarpam navios carregados com medos

do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu

a morada de uma vida inteira e pede-lhes

para murmurarem uma última canção para os olhos

e adormece sem lágrimas – com eles no chão

 

In: Al Berto. Horto de Incêndio. Assírio & Alvim. 3ª edição

 
 

Vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima, de Álvaro de Campos

Vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima,

Começam chegando os primitivos da espera,

Já ao longe o paquete de África se avoluma e esclarece.

Vim aqui para não esperar ninguém,

Para ver os outros esperar,

Para ser os outros todos a esperar,

Para ser a esperança de todos os outros.

 

Trago um grande cansaço de ser tanta coisa.

Chegam osretardatários do princípio,

E de repente impaciento-me de esperar, de existir, de ser,

Vou-me embora brusco e notável ao porteiro que me fita muito mas rapidamente.

 

Regresso à cidade como à liberdade.

 

Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir.

 

In: Fernando Pessoa. Livro de Viagem. Guerra & Paz

 
 

Excerto da novela Cinco Dias, Cinco Noites, de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal)

(…) Longe de veredas e povoados, a serra ondulava pedregosa e nua. Só aqui e além, ao fundo das encostas ou por detrás de cabeços, repousavam manchas macias de terra lavrada. Donde e quem vinha lavrá-la parecia um mistério em sítio tão desolado e ermo. Toda a tarde caminhavam, o Lambaça adiante, André atrás. Nem uma só vez avistaram um ser humano. Não fora o sol derramando luz no ar e nas coisas, não fora o ar límpido e leve, aquele deserto e aquele silêncio seriam intoleravelmente opressivos. Assim, a serra abria-se à intimidade, numa carícia tranquila e confiante. Mas, quando o sol começou a aproximar-se do horizonte, e os vales se diluíram em penumbras, e os cabeços e rebolos estenderam as sombras, e o ar começou a pesar de humidade e frio, então, sobranceira, a serra ganhou subitamente nova grandeza, como que olhando os intrusos com hostilidade. (…)

 

In: Manuel Tiago. Cinco Dias, Cinco Noites. Edições Avante 

02
Jun
11

A casa dos poetas

Hoje trago a casa dos poetas para o Sal da Língua. 

Uma escapada do trabalho fugidia e uma corrida suave para Campo de Ourique, mais precisamente para o nº 16 da Rua  Coelho da Rocha, permitiu-me aproveitar a temperatura morna da tarde e assistir ao Poema Bar na Casa Fernando Pessoa.

Depois de um dia cheio de trabalho em frente ao computador, ouvir Vinicius de Moraes e Fernando Pessoa foi uma aposta mais do que ganha. A fórmula foi simples: Alexandre Borges declamando, a Mariana Moraes cantando (numa versão quase à capela, na companhia do piano e algumas vezes voando sem rede e arriscando a sua voz frágil ao prolongar versos no tempo…) e João Vasco acompanhando ao piano as palavras dos poetas e assumindo em algumas situações o protagonismo do silêncio (como na versão de Carlos Paredes).

Deixo-vos a ementa servida, que sossegou as entranhas do espírito:

ABERTURA

Casa” Vinicius de Moraes

NOITE 

Poética” Vinicius de Moraes

Na noite terrível” Álvaro de Campos

Meu amor, meu amor” Alain Oulman/Ary dos Santos/arr. Jeff Cohen

Acalanto da Rosa” Cláudio Santoro/Vinicius de Moraes

MORTE

A última viagem de Jaime Ovalle” Vinicius de Moraes

Se te queres matar” Fernando Pessoa

Sede e Morte” Carlos Paredes/Pedro Faria Gomes

MÚSICA

Feijoada” Vinicius de Moraes

Uma música que seja” Vinicius de Moraes

Balada de cavalão”  Vinicius de Moraes

Trecho” Vinicius de Moraes

Soneto do Corifeu” Vinicius de Moraes

Operário em construção” Vinicius de Moraes

Amor em lágrimas” Cláudio Santoro/Vinicius de Moraes

Gaivota” Alain Oulman/Alexandre O’ Neill/Arr. Jeff Cohen

“TRISTEZA NÃO TEM FIM, FELICIDADE SIM…”

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa” Álvaro de Campos

Tenho tanto sofrimento” Fernando Pessoa

Bicabornato de soda” Álvaro de Campos

Gaivota” Alain Oulman/Alexandre O’ Neill/Ian Mikirtoumov

 

Casa Fernando Pessoa




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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