Posts Tagged ‘gato

05
Set
10

O pequeno persa

É um pequeno persa

azul o gato deste poema.

Como qualquer outro, o meu

amor por esta alminha é materno:

uma carícia minha lambe-lhe o pêlo,

outra põe-lhe o sol entre as patas

ou uma flor à janela.

Com garras e dentes e obstinação

transforma em festa a minha vida.

Quer-se dizer, o que me resta dela.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

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01
Jun
10

Um, dois, três

O Sal da Língua deseja a todos Um Feliz Dia da Criança!

Um, dois, três.

lá vai outra vez

o gato maltês

a correr atrás

da franga pedrês,

talvez a mordesse

apenas no pé,

o sítio ao certo

não sei bem qual é

(quatro, cinco, seis),

ou só lhe arranhasse

a ponta da crista,

e talvez nem isso,

seria só susto,

ou nem sequer mesmo

foi susto nenhum:

sete, oito, nove,

para dez falta um.

24
Jan
10

Souvenir Africain

O gato aproximou-se, escutando também ele o silêncio hirto das palmeiras, que são no horizonte a primeira coisa verdadeira que nos assoma aos olhos, mesmo antes de haver o que possa chamar-se claridade. O casario afogado no escuro respira anónimo e reles, a face encardida, a fenda estreita da boca por onde dificilmente passará a luz, que de súbito rompeu no terraço e não tardará a escaldar. Depois o sol acalma, e lá para o fim da tarde uma sombra mole escorre do muro para o cimento aquecido. É então que o gato se transforma em cadela, arrastando-se até aos nossos pés, deitando-se de costas, o ventre carnudo ávido do prazer profundo que lhe oferece por fim a mão.

5.6.85
28
Nov
08

Curta-metragem

Ao lume, as imagens acorrem sem esforço: trata-se de tornar real um gato, um gato que me entrou pelo sono. É inverno, veio com a chuva. Aproximou-se do fogo sem sequer olhar para mim, sacudiu algumas gotas de água e enroscou-se na tijoleira quente, tendo caído no sono como pedra no poço. Contemplava aquele novelo desluzido e fremente com inveja – adormecera tão facilmente! Também ele sonha, e no seu sonho há um dia de sol, e pardais na eira, e medas de palha. Espreguiçava-se, o corpo em arco, sobre as patas todas. É preto, pintado por Manet. Devo ficar com ele, os gatos pretos dão sorte, embora sejam ariscos. Não lhe tirava os olhos de cima, começava a considerá-lo uma companhia. Ocasional, leve, descomprometida. Uma afloração da pele mais do que enredos de espírito. De repente, aquele pequeno companheiro de algumas horas estremeceu, saltou sobre um pardalito que se lhe escapa de entre as pernas, corre atrás dele, não pára de correr, regressa à chuva. E eu, ao lume.

 

1985




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Maio 2019
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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