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29
Jun
11

Retrato de rapariga (Gageiro, Alentejo, 1985)

… Um poema escrito a  propósito de um dos trabalhos do fotógrafo português Eduardo Gageiro…

 

Ela é na sua transparência

vegetal o rosto limpo da manhã,

o terreiro varrido pela luz

verde e ondulada do trigo,

a beleza concreta rente ao chão:

a infindável extensão da cal,

a lenta aproximação de um rio.

16.7.99

 

In: Homenagens e Outros Epitáfios (1974)

 
 
13
Fev
11

Luz recente

Respiras com cautela a luz

recente.

Deve ter acordado: canta.

Anos e anos adormecida

no fundo da pupila.

Já nem te lembravas

que fora assim tão jovem

e tinha

o nome da alegria.

Agora canta. Canta

em surdina.

In: Os Lugares do Lume (1998)

02
Fev
11

Coda

Quando o ser da luz for

o ser da palavra,

no seu centro arder

e subir com a chama

(ou baixar à água)

então estarei em casa.

In: Sal da Língua (1995)

12
Abr
10

Ninguém cheira melhor

Ninguém cheira melhor

nestes dias

do que a terra molhada: é outono.

Talvez por isso a luz,

como quem gosta de falar

da sua vida, se demora à porta,

ou então passa as tardes à janela

confundindo o crepúsculo

com as ruínas

da cal mordida pelas silvas.

Quando se vai embora o pano desce

rapidamente.

19
Fev
10

Pela luz oblíqua devia ser Inverno

Pela luz oblíqua devia ser inverno,
um punhado de olhos procurava
nos meus
iluminados epitáfios.

Não gosto de ser olhado assim,
não tenho piedade
nem rosas, conheço os guinchos pelo voo,
venho dos lados do mar.

São vagarosas as derradeiras
luzes, também eu não tenho pressa:
não entendo essas vozes,
se me chamam não é por mim que chamam,

que não sou daqui.
08
Nov
09

Estou aqui

Estou aqui sentado – ali o mar,
 as palmeiras.
O leite fresco, o pão na mesa.
O gesto sempre igual
da luz, o mesmo olhar da ave.
Existe uma secreta harmonia
entre a luz e o mar,
a mesma provavelmente
entre a palmeira e a ave,
o leite e o pão.
E com a palavra, o seu
voo a prumo,
com a palavra qual é a relação?
02
Nov
09

A casa

Nem sempre a luz vem assim:
salta como um rapaz muro após muro,
entra pela janela.

O brilho dos medronhos chega ao fim:
extrema ponta dos dias,
aproximação da água.

Dia feito para a música, dizias;
ou para a dança, acrescentavas:
ritmo puro, sustido.

De muro em muro, sem nenhum peso,
entra pela casa.
Agora é ela que dorme comigo.
16
Jul
09

Assim seja

A terra é boa, e o corpo
apesar de bastardo
traz consigo pátios
e cavalos. A multiplicação
da luz torna mais limpo o ar,
até mesmo a lebre
salta dos fenos.
Contenta-te com ser, hoje
amanhã
outro dia, esta luz breve.
03
Jun
09

Sem ti + Sem Mário Benedetti

É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo
dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.

Hoje trago para junto de Eugénio o poeta uruguaio Mário Benedetti, uma das personalidades literárias mais importantes da América latina. Poeta, ensaísta, romancista, amado por quem ama a sua obra e amado por todos os que com ele tiveram o prazer de contactar e conhecer, Benedetti deixou-nos no passado dia 17 de Maio, vítima de doença prolongada, aos 88 anos. Cruzei-me com o nome Mário Benedetti há muito pouco tempo, através de uma referência ao seu estado de saúde no Caderno de Saramago. Fiquei sensibilizada também com a iniciativa de Pilar del Rio, que apelou a todos os amigos e admiradores de Benedetti a estabelecer uma “Corrente poética” com a leitura dos seus poemas por todo o mundo, uma corrente de apoio espiritual que de alguma maneira o pudesse ajudar neste momento difícil. Depois da notícia da sua morte, ouço os sinais do jornalista Fernando Alves na TSF e a sua bonita homenagem a Benedetti, com a leitura de alguns dos seus poemas, entre os quais este “Passatempo”, que aqui deixo em sua homenagem e como ponto de partida para todos os que, como eu, desconhecem o seu legado.

Cuando éramos niños                                   Quando éramos meninos                  
los viejos tenían como treinta                        os velhos não teriam mais de trinta
un charco era un océano                               um charco era um oceano
la muerte lisa y llana                                a morte lisa e plana
no existía.                                           não existia.

Luego cuando muchachos                                Já quando rapazes
los viejos eran gente de cuarenta                     os velhos eram gente de quarenta
un estanque un océano                                 um tanque um oceano
la muerte solamente                                   a morte apenas
una palabra.                                          uma palavra. 

Ya cuando nos casamos                                 E quando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta                     os anciãos estavam pelos cinquenta
un lago era un océano                                 um lago era um oceano
la muerte era la muerte                               a morte era a morte
de los otros.                                         dos outros.
 
Ahora veteranos                                       Agora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad                       e que alcançamos a verdade
el océano es por fin el océano                        o oceano é por fim o oceano
pero la muerte empieza a ser                          mas a morte começa a ser
la nuestra.                                           a nossa.
16
Maio
09

Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Julho 2020
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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