Posts Tagged ‘manhã

12
Set
14

Que voz lunar?

 Que voz lunar insinua

o que não pode ter voz?

 

Que rosto entorna na noite

todo o azul da manhã?

 

Que beijo de oiro procura

uns lábios de brisa e água?

 

Que branca mão devagar

quebra os ramos do silêncio?

 

In: Mar de Setembro (1961)

12
Ago
13

Deixo ao Miguel as coisas da manhã

Deixo ao Miguel as coisas da manhã –

a luz (se não estiver já corrompida)

a caminho do sul,

o chão limpo das dunas desertas,

um verso onde os seixos são

de porcelana,

o ardor quase animal

de uma romã aberta.


In: O Peso da Sombra (1982)

10
Jul
10

Rilkeana

De ti e desta nuvem; desta nuvem

branca como voo de pássaro

em manhã de Abril; de ti

e da íntima chama de um fogo

que não consente extinção;

de ti e de mim fazer um só acorde,

um acorde só; para não te perder.

29
Mar
10

Ó manhã

 

Ó manhã,

manhã,

manhã de setembro,

invade-me os olhos,

inunda-me a boca,

entra pelos poros

do corpo, da alma,

até ser em ti,

sem peso e memória,

um acorde só

do vento e da água,

uma vibração

sem sombra nem mágoa.

08
Mar
10

Abril

Brinca a manhã feliz e descuidada,

como só a manhã pode brincar,

nas curvas longas desta estrada

onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais

coroado de rosas e de cio,

e num salto brusco, sem deixar sinais,

rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,

carregados de espanto e de alegria,

e atira pedras às curvas mais distantes

 – onde a voz dos ciganos se perdia.

20
Nov
09

Manhã de Junho

Talvez, talvez sejam os últimos
dias. Se for assim, são um esplendor.
Apesar dos aviões da Nato despejarem
bombas e bombas no Kosovo, a perfeição
mora neste muro branco
onde o escarlate
da flor da buganvília sobe ao encontro
da luz fresca da manhã de junho.
A beleza (não há outra palavra
para dizê-lo), a beleza desta manhã
é terrível: persiste, domina –
apesar dos aviões, mesmo com
bombas a cair e crianças a morrer.
28
Fev
09

Cristalizações

1

Com palavras amo.

 

2

Inclina-te como a rosa

só quando o vento passe.

 

3

Despe-te

como o orvalho

na concha da manhã.

 

4

Ama

como o rio sobe os últimos degraus

ao encontro do seu leito.

 

5

Como podemos florir

ao peso de tanta luz?

 

6

Estou de passagem:

amo o efémero.

 

7

Onde espero morrer

será manhã ainda?




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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