Posts Tagged ‘mão

18
Jul
11

Herança

É a minha herança: o sorriso,

o azul de uma pedra branca.

Posso juntar-lhe, ao acaso da memória,

um ramo de madressilva inclinado

para as abelhas que metodicamente fazem

do outono o lugar preferido do verão,

um melro que deixou o jardim público

para fazer ninho num poema meu,

um barco chamado Cavalinho na Chuva

à espera de reparação no molhe da Foz.

Deve haver mais alguma coisa,

não serei tão pobre, cometemos sempre

a injustiça de não referir, por pudor,

coisas mais íntimas: um verso de Safo

traduzido por Quasimodo, a mão

que por instantes nos pousou no joelho

e logo voou para muito longe,

as cadências do coração

teimoso em repetir que não envelheceu.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

17
Maio
11

Frases

No verão inocente dos joelhos

 

à entrada da noite

como se a luz doesse

 

entre o desejo

e o espasmo lentíssimo relâmpago

 

a mão.

 

In: Véspera da Água (1973)

11
Out
10

Antes de saber

Até onde os dedos tocam o quente

do barro a mão sabe

antes de saber.

É um saber mais vivo, um saber

de ave: águia cegonha falcão,

animais quase no fim

como o lume destes dias.

Testemunhar a favor do lince

é nossa obrigação.

Por ser azul.

In: Ofício de Paciência (1994)

06
Out
10

Sobre o mar

Sobre o mar

a mão escreve. Como se escrever

servisse para diminuir o erro.

Escreve

num país atravessado a prumo

pelo delírio.

País despossuído. O voo rasteiro

e curto. De muro em muro.

 

In: Pequeno Formato (1997)

11
Abr
10

É um dizer

Estende um pouco mais a mão

recolhe um a um os sinais do desejo

fogo de abelhas o sexo

espera a insurreição da cal

a espessa ondulação do vento

é sobre um corpo a própria exaltação

morrer nos flancos do amor é um dizer

repara como brilham os limoeiros

24
Nov
09

Cante Jondo

A mão onde pousava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada pousava
do que a noite trazia.
28
Set
09

Sobre a palavra

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece.
 
Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama.
 
Assim se morre dizias tu.
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a
cintura.
 
Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada.
 
Interminavelmente.
20
Set
09

Como no início

É a noite por fim, podes tocá-la.
Também a mão, a pequena e febril
música da mão, aí está a iluminá-la.
Agora vê-se melhor o caminho.
12
Jul
09

A mão, a terra prometida

A mão, a terra prometida
cada vez mais distante, só a mão
sabe ainda o caminho.
 
Um corpo não é casa da tristeza
e eu sempre pousei à entrada
da pedra do verão.
 
Ó pedra pedra — pedra de alegria.
Exasperada.
27
Abr
09

Da ignorância

A mão

que entregava à tua

os primeiros sinais do verão

já não sabe o caminho – é como se

em vez de aprender fosse cada vez mais

e mais ignorante. Ou ignorar

fosse todo o saber.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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