Posts Tagged ‘memória

28
Abr
12

Memória dos Dias

Vais e vens na memória dos dias

onde o amor

cercou a casa de luz matutina.

Às vezes sabíamos de ti pelo aroma

das glicínias escorrendo no muro,

outras pelo rumor do verão rente

ao oiro velho dos plátanos.

Vais e vens. E quando regressas

é o teu cão o primeiro a sabê-lo.

Ao ouvi-lo latir, sabíamos que contigo

também o amor chegara a casa.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

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19
Fev
11

Canto rouco

Antes que perca a memória

das pedras do adro,

antes do corpo ser

um só e quebrado

ramo sem água,

devolvei-me o canto

rouco

e desamparado

do harmónio na noite.

Mãe!,

desamparado na noite.

In: Coração do Dia (1958)

24
Nov
09

Cante Jondo

A mão onde pousava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada pousava
do que a noite trazia.
28
Out
08

Sem memória

Haverá para os dias sem memória

outro nome que não seja morte?

Morte das coisas limpas, leves:

manhã rente às colinas,

a luz do corpo levada aos lábios,

os primeiros lilazes do jardim.

Haverá outro nome para o lugar

onde não há lembrança de ti?




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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