Posts Tagged ‘Miguel

12
Ago
13

Deixo ao Miguel as coisas da manhã

Deixo ao Miguel as coisas da manhã –

a luz (se não estiver já corrompida)

a caminho do sul,

o chão limpo das dunas desertas,

um verso onde os seixos são

de porcelana,

o ardor quase animal

de uma romã aberta.


In: O Peso da Sombra (1982)

23
Abr
09

A formiga

Sete palmos, sete metros,

anda a formiga por dia

(sete palmos a correr,

sete metros devagar),

só para lamber o mel

que lentamente escorria

quer da boca quer do pão,

quer dos dedos do Miguel.

 

Eugénio de Andrade por Graça Martins

Eugénio de Andrade por Graça Martins

25
Mar
09

Homenagem a Raul Brandão

O Sal da Língua agradece as mais de 10000 visitas e inaugura hoje a prosa de Eugénio neste espaço de todos.

 

Almocei no Cerco do Porto e como o dia estava bonito peguei no Miguel e fomos até à Foz. O miúdo nunca andara de eléctrico, além disso eu queria mostrar-lhe a casa onde nascera Raul Brandão e a Praia dos Ingleses, antes que as ondas a levassem. O Gil deixou-nos no Infante e viria esperar-nos lá para o fim da tarde. Como se no outono o mar já não merecesse o olhar de ninguém, o eléctrico ia quase vazio. Apontei ao Miguel o casario cigano de Miragaia, os estaleiros sonolentos de Massarelos, a Cantareira reduzida a um estendal de roupa ao sol, as gaivotas do Cabedelo, tão próximas e confiantes que terminaram por entrar num poema meu.

Descemos no Passeio Alegre; ali estava ainda a loja do Augusto onde se vendia, de fabrico caseiro, a mais perfumada compota de framboesas; aqui, a rua onde crescera o Raul Brandão, a casa onde nasceu, na qual ninguém poderia já escutar o murmúrio da bica de água ou ver o pessegueiro bravo florir encostado ao muro do quintal; por estes degraus sobe-se ao adro da igreja matriz, donde já não se avista o mundo porque o mundo cresceu desmesuradamente, mas onde podem contemplar-se uns plátanos formosíssimos, agora carregados de oiro velho. Por ruas estreitas e vielas, que se encontram ainda “a cem léguas do Porto e da vida” chega-se por fim, mesmo indo devagarinho, à Confeitaria da Foz, com o Miguel a aguentar-se bem nas pernas, apesar dos seus escassos seis anos.

A confeitaria onde eu e o Pascoaes tomávamos o café, não mudara só de nome, mudara também de aspecto, embora conservasse ao fundo algumas mesas junto às vidraças, por onde entrava o mar. Depois de nos sentarmos, comecei a falar do velho poeta ao Miguel. Não me parece que ele esteja muito atento.

Ó papi, qual é o maior, o Pascoaes ou o Fernando Pessoa?

Isso é uma pergunta que tem pouco sentido, Miguel. Um poeta, quando é grande, é sempre o maior para quem faz sua a poesia dele.

Mas qual achas que é o maior?

Bem, eu gosto mais do Pessoa. Não vale a pena dizer-te porquê, não saberia dizê-lo com palavras que tu entendesses.

O empregado serviu o café, o Sumol. Observo o pequeno enchendo escrupulosamente o copo.

Ó papi, tu gostavas que eu fosse como o Fernando Pessoa?

Não, filho; o que eu gostava era que fosses feliz.

Mas é que se eu fosse como o Fernando Pessoa não era feliz.

Ah, sobre isso não tenho dúvidas; ele também não o era, nem creio que estivesse preocupado com isso.

Calou-se; mas a pausa foi breve.

Tu sabes como é que eu era feliz?

Não, não faço ideia.

Fez outra pausa, mais breve.

Era feliz, se fosse como o Gomes.

Não respondi. Foi ele que insistiu:

Sabes quem é o Gomes?

Fingi uma ignorância maior do que na realidade tinha:

Deve ser…

Tu não sabes nada, papi! É o Bota de Oiro! Sabes o que é o Bota de Oiro?

Não me deu tempo de dizer sim ou não:

É o que mete mais golos.

Está bem Miguel, vamos ver o mar; deixa lá o Gomes e o Pessoa. O que importa é que venhas a ser tu próprio, não há outra maneira de ser feliz.

Peguei-lhe na mãozita, que se abandonou, confiante. Descemos à praia, soltou-se, correu pela areia. O mar era uma porção de brilhos, habitado, como estava, somente pela luz.

22
Fev
08

Cavalos

Uma canção de cavalos

me pede o Miguel que escreva:

cavalos de sol sedentos,

mansos cavalos de seda.

Cavalos bebendo a sombra

verde e rosa das palmeiras

ou bailando nas areias

com as luzes derradeiras.

Cavalos de romanceiro

disparados como setas

em terras da minha terra

ou só na minha cabeça.

Cavalos de sol sedentos,

mansos cavalos de seda:

uma canção de cavalos

me pede o Miguel que escreva.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Agosto 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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