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16
Mar
11

O azul, o azul rouco, o azul

O azul, o azul rouco, o azul

sem cor, luz gémea da sede.

Acerca deste rigor

tenho uma palavra a dizer,

uma sílaba a salvar

desta aridez, asa

ferida, o olhar arrastado

pela pedra

calcinada, húmido

ainda de ter pousado

à sombra de um nome,

o teu,

amor do mundo, amor de nada.

In: Contra a Obscuridade (1988)

02
Jan
10

Sobre o coração

Eras a casa, o lugar
onde o sol
ardia sobre a pedra,
a pedra sobre o mundo,
o mundo sobre o coração.
Como podias, uma
a uma, suportar as lágrimas
do mundo, ninguém sabia:
o lugar do sol
era a casa – e ardia.
24
Maio
09

Rumor do mundo

As palavras, vício
torpe, antigo.
As últimas? As primeiras?
Como os ouriços
abrem-se ao rumor do mundo:
o sol ainda verde dos limões,
os esquilos
de outras tardes, o latido
da chuva nas janelas,
os velhos em redor do lume
- nunca foram tão belas.
12
Mar
09

Não quero, não

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.

 

Quero um cavalo só meu,

seja baio ou alazão,

sentir o vento na cara,

sentir a rédea na mão.

 

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.

 

Não quero muito do mundo:

quero saber-lhe a razão,

sentir-me dono de mim,

ao resto dizer que não.

 

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.

28
Jan
09

Rosa do mundo

Rosa. Rosa do mundo.

Queimada.

Suja de tanta palavra.

 

Primeiro orvalho sobre o rosto.

Que foi pétala

a pétala lenço de soluços.

 

Obscena rosa. Repartida.

Amada.

Boca ferida, sopro de ninguém.

 

Quase nada.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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