Posts Tagged ‘palavra

21
Maio
15

Escrita da terra

1.

Sê tu a palavra,

branca rosa brava.

2.

Só o desejo é matinal.

Poupar o coração

é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.

Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.

Beber-te a sede e partir

– eu, que sou de tão longe.

Da chama à espada

o caminho é solitário.

7.

Que me quereis,

se me não dais

o que é tão meu?

In: Ostinato Rigore (1964)

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10
Mar
11

Metamorfoses da palavra

A palavra nasceu:

nos lábios cintila.

 

Carícia ou aroma,

mal pousa nos dedos.

 

De ramo em ramo voa,

na luz se derrama.

 

A morte não existe:

tudo é canto ou chama.

 

In: Até Amanhã (1956)

08
Nov
09

Estou aqui

Estou aqui sentado – ali o mar,
 as palmeiras.
O leite fresco, o pão na mesa.
O gesto sempre igual
da luz, o mesmo olhar da ave.
Existe uma secreta harmonia
entre a luz e o mar,
a mesma provavelmente
entre a palmeira e a ave,
o leite e o pão.
E com a palavra, o seu
voo a prumo,
com a palavra qual é a relação?
20
Out
09

Um amigo é às vezes o deserto

Um amigo é às vezes o deserto,
outras a água.
Desprende-te do ínfimo rumor
de agosto; nem sempre
 
um corpo é o lugar da furtiva
luz despida, de carregados
limoeiros de pássaros
e o verão nos cabelos;
 
é na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.
 
O real é a palavra.
28
Set
09

Sobre a palavra

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece.
 
Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama.
 
Assim se morre dizias tu.
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a
cintura.
 
Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada.
 
Interminavelmente.
29
Jul
09

As gaivotas

Nenhuma palavra acorre hoje para me ajudar a carregar com o dia. Contemplo longamente (ver é agora a minha única paixão) a ave que desenhaste no meu caderno, ferida em pleno voo – quem terá forças para impedi-la de morrer? Outras gaivotas passam quase rente à janela, vai chover. Troco este céu impassível pelas dunas de Fão, agora só na memória. Também aí as gaivotas anunciavam que a luz mudara de direcção, e algumas aproximavam-se tanto do meu rosto que eu chegava a recear que me bicassem os olhos. Elas vêm e vão, o céu está agora mais claro, já não as vejo. Talvez não caia mais que um dedalzinho de água, ou nem isso sequer.

28.2.86

26
Maio
09

Coda

Quando o ser da luz for
o ser da palavra,
no seu centro arder
e subir com a chama
(ou baixar à agua),
então estarei em casa.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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