Posts Tagged ‘pátria

25
Abr
09

A Casais Monteiro, podendo servir de epitáfio

O que dói não é um álamo.

Não é a neve nem a raiz

da alegria apodrecendo nas colinas.

O que dói

 

não é sequer o brilho de um pulso

ter cessado,

e a música, que trazia

às vezes um suspiro, outras um barco.

 

O que dói é saber.

O que dói

é a pátria, que nos divide e mata

antes de se morrer.

 

Setembro, 1972

 

Neste 25 de Abril relembro pela mão de Eugénio todos aqueles que, como Casais Monteiro, não o puderam ser na sua pátria e que com essa manhã de Abril tanto sonharam.

 

Mais sobre Adolfo Casais Monteiro…

 

Adolfo Victor Casais Monteiro nasceu no Porto em 1908 e morreu em São Paulo em 1972. Depois da sua licenciatura, na Faculdade de Letras do Porto, em Ciências Históricas e Filosóficas, começa a ensinar no Porto em 1934 e casa-se com Alice Pereira Gomes, irmã de Soeiro Pereira Gomes. A sua criação literária é já nestes anos dominada por dois géneros: a poesia e o ensaio. No final da década de 1930 e na década seguinte foi demitido do ensino (1937) e preso sete vezes, vivendo uma vida profissional atribulada por motivos políticos, mantendo a sua actividade de poeta e crítico através de trabalhos de tradução e edição. Os anos da década de 1940 são particularmente férteis em termos poéticos: Sempre e sem Fim data de 1937, e na década seguinte, seguem-se-lhe Canto da nossa Agonia (1942), Noite Aberta aos Quatro Ventos (1943), Versos (1944, reunião dos três livros de poesia anteriores) e, com particular destaque, Europa (1946), longo poema lido por António Pedro aos microfones da BBC de Londres ainda durante a guerra (1945). Por fim, em 1949, outra colectânea poética, Simples Canções da Terra. Exila-se em 1954 no Brasil (onde ensinou em várias universidades, com uma breve passagem pelos EUA perto do fim da vida) por motivos políticos (proibição de ensinar) e por motivos pessoais (desejo de liberdade). No Brasil mantém a sua actividade poética, tendo sempre em vista a actividade artística e literária em Portugal (onde nunca voltou), como as dedicatórias dos poemas dos últimos livros deixam perceber. Depois de décadas sem que a Censura permitisse, sequer, a publicação do seu nome, em 1969 a Portugália Editora lança o volume Poesias Completas, marcando a recepção da sua Obra pela geração que fará o 25 de Abril. Antes disso, morreu, em 24 de Julho de 1972.

 

23
Dez
08

A pequena pátria

A pequena pátria; a do pão;

a da água;

a da ternura, tanta vez

envergonhada;

a de nenhum orgulho nem humildade;

a que não cercava de muros

o jardim nem roubava

aos olhos o desajeitado voo

das cegonhas; a do cheiro quente

e acidulado da urina

dos cavalos; a dos amieiros

à sombra onde aprendi

que o sexo se compartilhava;

a pequena pátria da alma e do estrume

suculento morno mole;

a da flor múltipla e tão amada

do girassol.

 

Estou de partida para outros mares, para reforçar o corpo e o espírito e, por isso, o Sal da Língua cristaliza durante as próximas três semanas. Um óptimo Natal para todos.

20
Nov
08

Espelho

Que rompam as águas:

é de um corpo que falo.

 

Nunca tive outra pátria,

nem outro espelho;

nunca tive outra casa.

 

É de um rio que falo;

desta margem onde soam ainda,

leves,

umas sandálias de oiro e de ternura.

 

Aqui moram as palavras;

as mais antigas,

as mais recentes:

mãe, árvore,

adro, amigo.

 

Aqui conheci o desejo

mais sombrio,

mais luminoso;

a boca

onde nasce o sol,

onde nasce a lua.

 

E sempre um corpo,

sempre um rio;

corpos ou ecos de colunas,

rios ou súbitas janelas

sobre dunas;

corpos:

dóceis, doirados montes de feno;

rios:

frágeis, frias flores de cristal.

 

E tudo era água,

água,

desejo só

de um pequeno charco de luz.

 

De luz?

Que sabemos nós

dessas nuvens altas,

dessas agulhas

nuas

onde o silêncio se esconde?

Desses olhos redondos,

agudos de verão,

e tão azuis

como se fossem beijos?

 

Um corpo amei;

um corpo, um rio;

um pequeno tigre de inocência

com lágrimas

esquecidas nos ombros,

gritos

adormecidos nas pernas,

com extensas,

arrefecidas

primaveras nas mãos.

 

Quem não amou

assim? Quem não amou?

Quem?

Quem não amou

está morto.

 

Piedade,

também eu sou mortal.

Piedade

por um lenço de linho,

debruado de feroz melancolia,

por uma haste de espinheiro

atirada contra o muro,

por uma voz que tropeça

e não alcança os ramos.

 

De um corpo falei:

que rompam as águas.

23
Out
08

Frésias

Uma pátria tem algum sentido

quando é a boca

que nos beija a falar dela,

a trazer nas suas sílabas

o trigo, as cigarras,

a vibração

da alma ou do corpo ou do ar,

ou a luz que irrompe pela casa

com as frésias

e torna, amigo, o coração tão leve.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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