Posts Tagged ‘pele

11
Out
11

Outros ritmos, outros modos

Não é o mar, não é o vento, é o sol

que me dói da cintura aos sapatos.

Sol de fins de Julho,

ou de Agosto a prumo: finas

agulhas de aço.

É o sol destes dias, aceso

na folhagem.

Bebendo a minha água.

Colado à minha pele.

É doutro território, doutro areal.

Tem outros ritmos, outros modos,

outros vagares para roer

a cal, morder-me os olhos.

Até quando cega canta ao arder.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

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13
Set
09

Também, também o pulso

Também, também o pulso,
também o pulso arde, e morre
a luz na pele;
 
arde com rumor de amêndoa
dentro do caroço,
de criança no escuro;
 
será por setembro, quando a água
da neve ainda não conhece
a boca dos poços;
 
quando a frágil alegria do olhar
quebra na sombra
o seu azul, o seu aroma.
03
Jun
09

Sem ti + Sem Mário Benedetti

É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo
dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.

Hoje trago para junto de Eugénio o poeta uruguaio Mário Benedetti, uma das personalidades literárias mais importantes da América latina. Poeta, ensaísta, romancista, amado por quem ama a sua obra e amado por todos os que com ele tiveram o prazer de contactar e conhecer, Benedetti deixou-nos no passado dia 17 de Maio, vítima de doença prolongada, aos 88 anos. Cruzei-me com o nome Mário Benedetti há muito pouco tempo, através de uma referência ao seu estado de saúde no Caderno de Saramago. Fiquei sensibilizada também com a iniciativa de Pilar del Rio, que apelou a todos os amigos e admiradores de Benedetti a estabelecer uma “Corrente poética” com a leitura dos seus poemas por todo o mundo, uma corrente de apoio espiritual que de alguma maneira o pudesse ajudar neste momento difícil. Depois da notícia da sua morte, ouço os sinais do jornalista Fernando Alves na TSF e a sua bonita homenagem a Benedetti, com a leitura de alguns dos seus poemas, entre os quais este “Passatempo”, que aqui deixo em sua homenagem e como ponto de partida para todos os que, como eu, desconhecem o seu legado.

Cuando éramos niños                                   Quando éramos meninos                  
los viejos tenían como treinta                        os velhos não teriam mais de trinta
un charco era un océano                               um charco era um oceano
la muerte lisa y llana                                a morte lisa e plana
no existía.                                           não existia.

Luego cuando muchachos                                Já quando rapazes
los viejos eran gente de cuarenta                     os velhos eram gente de quarenta
un estanque un océano                                 um tanque um oceano
la muerte solamente                                   a morte apenas
una palabra.                                          uma palavra. 

Ya cuando nos casamos                                 E quando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta                     os anciãos estavam pelos cinquenta
un lago era un océano                                 um lago era um oceano
la muerte era la muerte                               a morte era a morte
de los otros.                                         dos outros.
 
Ahora veteranos                                       Agora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad                       e que alcançamos a verdade
el océano es por fin el océano                        o oceano é por fim o oceano
pero la muerte empieza a ser                          mas a morte começa a ser
la nuestra.                                           a nossa.
20
Mar
09

Tocar-te a pele

Tocar-te a pele

o pulso aberto

ao gume do olhar.

 

Que seja essa

 a casa, a estrela

do primeiro dia.

 

Rosa inflamável,

boca do ar.

 

 

Notícias da Fundação:

 

A lista inicial de poetas que estarão na Fundação para a sessão do Dia Mundial da Poesia foi aumentada. Assim, no próximo sábado, dia 21, pelas 18h30, estarão na Fundação Eugénio de Andrade para ler poemas inéditos, os seguintes poetas: Albano Martins, Fernando Guimarães, Eduarda Chiote, António Rebordão Navarro, Ana Luísa Amaral, Helga Moreira, José Emílio-Nelson, Rosa Alice Branco, Daniel Maia Pinto Rodrigues, João Luís Barreto Guimarães, Rui Lage, Inês Lourenço e Jorge Reis-Sá. A entrada é livre.

11
Fev
09

Conhecias o Verão pelo cheiro

Conhecias o verão pelo cheiro,

o silêncio antiquíssimo

do muro, o furor das cigarras,

inventavas a luz acidulada

a prumo, a sombra breve

onde o rapazito adormecera,

o brilho das espáduas.

 

É o que te cega, o sol da pele.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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