Posts Tagged ‘POESIA

02
Jul
15

O Sal da Língua sugere… Festival Silêncio 2015

O Sal da Língua sugere, para estes dias que se avizinham (2 a 5 de julho), uma visita, várias visitas ou, se possível for, a permanência no Festival Silêncio 2015. O Festival Silêncio, com palco no Cais do Sodré (eixo da Rua de São Paulo), é a celebração da palavra enquanto unidade criativa, veículo do pensamento e da criação. Durante quatro dias, o Festival Silêncio oferece à cidade de Lisboa uma programação pensada em conjunto com uma diversidade de artistas, produtores, entidades de criação, estruturas de divulgação e instituições de carácter social e cultural locais, nacionais e internacionais. O Festival Silêncio é a festa da palavra dita, escrita, pensada, encenada, cantada, musicada, filmada e ilustrada. É um convite à cidade de Lisboa, é de todos e para todos.
Mais informações aqui: http://festivalsilencio.com/

FestivalSilencio_site

07
Abr
12

O Sal da Língua sugere…sempre Poesia e por isso Florbela

O Sal da Língua sugere uma ida ao cinema para ver o filme Florbela, que já está nas salas um pouco por todo o país e que retrata uma das fases da vida da poetisa Florbela Espanca, um dos nomes incontornáveis da poesia portuguesa do século XX. A actriz Dalila Carmo entrega-se de corpo e alma para nos dar um retrato conseguido de uma época, de um enquadramento político e social, mas sobretudo de uma mulher – Florbela – desajustada perante as várias realidades de que fazia parte – o casamento, o amor às pessoas que a rodeavam, a família, o Alentejo, Portugal. O filme tem algumas fraquezas mas é uma homenagem à vida de Florbela e através da sua vida, mostrada no ecrã, somos conduzidos inevitavelmente ao mais fundo da sua poesia.

 

“Eu sou a que no mundo anda perdida

Eu sou a que na vida não tem norte

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada… a dolorida…

 

Sombra de névoa ténue e esvaecida,

E que o destino, amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!

 

Sou aquela que passa e ninguém vê

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…

 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou…

Alguém que veio ao mundo pra me ver

E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

 

16
Jun
11

Música de palavra(s)

O Festival Silêncio teve honras de abertura, ontem à noite, com o espectáculo “Música de Palavra(s)”, uma celebração da palavra poética cantada a duas mãos por José Mário BrancoCamané, acompanhados magistralmente pelo contrabaixo de Carlos Bica, pela guitarra de José Peixoto e pelo piano e acordeão de Filipe Raposo. Com todos eles e com todos nós estiveram, claro está, os poetas, celebrados com palavras, com sons, com silêncios e com intimidade. Na tela montada no palco iam morando, vez à vez, a Sophia, o Alexandre O’Neill, o Cesariny, e a poesia até então na voz dos cantores era tomada pelos poetas, numa proximidade com quem na plateia estava que chegava a ser arrepiante. Outras presenças ou fragmentos poéticos marcaram o espaço de partilha no Cinema São Jorge: Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Florbela Espanca, Jorge de Sena, Camões, Ruy Belo, David Mourão Ferreira, Antero.

Um espectáculo musical único, de celebração da poesia, e que abre com chave de ouro o belíssimo festival que é este Festival Silêncio, onde de 15 a 25 de Junho, em diversos palcos da cidade de Lisboa, vai celebrar-se a palavra poética dita e o seu cruzamento com outras artes, desde a música ao cinema, passando pelas artes cénicas e vídeo.

Aqui ficam alguns fragmentos da noite:

 

Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

(…)

Natália Correia

 

Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

(…)

Fernando Pessoa

 

 (…) ter de existir num tempo de canalhas

de um umbigo preso à podridão de impérios

e à lei de mendigar favor dos grandes

 (…)

Jorge de Sena

 

É uma escada em caracol

E que não tem corrimão.

Vai a caminho do Sol

Mas nunca passa do chão.

(…)                 

 Sobe-se numa corrida.

Corre-se p’rigos em vão.

Adivinhaste: é a vida

A escada sem corrimão

David Mourão-Ferreira

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

(…)

Camões

10
Jun
11

O Sal da Língua comemora… o Dia de Portugal

O Sal da Língua comemora o dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas e fá-lo com poesia, com poetas e com Portugal como poema.

 Portugal, de Alexandre O’Neill (1924-1986)

(In: Poesias Completas, Alexandre O’Neill, Assírio & Alvim)

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,

linda vista para o mar,

Minho verde, Algarve de cal,

jerico rapando o espinhaço da terra,

surdo e miudinho,

moinho a braços com um vento

testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,

se fosses só o sal, o sol, o sul,

o ladino pardal,

o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,

a desancada varina,

o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,

a muda queixa amendoada

duns olhos pestanítidos,

se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,

o ferrugento cão asmático das praias,

o grilo engaiolado, a grila no lábio,

o calendário na parede, o emblema na lapela,

ó Portugal, se fosses só três sílabas

de plástico, que era mais barato!

 

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,

rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,

não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,

galo que cante a cores na minha prateleira,

alvura arrendada para o meu devaneio,

bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,

golpe até ao osso, fome sem entretém,

perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,

rocim engraxado,

feira cabisbaixa,

meu remorso,

meu remorso de todos nós…

 

O Sal da Língua aproveita também para divulgar a iniciativa “Um Poema por Semana”, um programa televisivo que teve a sua estreia no dia 21 de Março (Dia Mundial da Poesia), onde o desafio é que 15 poemas de 15 poetas portugueses  sejam ditos ao longo de 75 dias, por 75 pessoas.  

Cada poema é dito de segunda a sexta-feira por 5 pessoas. Uma à segunda, outra à terça, outra à quarta, outra à quinta e outra à sexta. O mesmo poema! Será emitido diariamente, com duas repetições por dia, e os dizedores serão gente como nós, amantes da poesia.

Os poetas escolhidos são: Sophia de Mello Breyner Andresen, Cesário Verde, Ruy Belo, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Sá de Miranda, António Nobre, Alexandre O’Neill, Luís Vaz de Camões, Jorge de Sena, José Régio, David Mourão-Ferreira, António Gedeão, Mário Cesariny e Eugénio de Andrade.

26
Maio
11

Tebas

Era um lugar onde só

a poesia

me podia ter levado –

lugar de morte, a luz

roída,

rala.

Até a minguada

romãzeira

era de pedra.

O vento

acrescenta-lhe a poeira.

 

In: Escrita da Terra (1974)

27
Jan
11

O Sal da Língua sugere…Sophia

O Sal da Língua sugere uma visita à exposição “Sophia de Mello Breyner Andresen – Uma Vida de Poeta”, inaugurada ontem na Biblioteca Nacional e que aí permanecerá até 30 de Abril. Depois da doação do espólio literário e artístico de Sophia à Biblioteca pelos seus filhos, cujo termo de doação foi ontem assinado,  ficam disponíveis fragmentos da vida e da obra: inéditos, primeiras edições, correspondência, fotografias, cartas, diários de viagens. Sophia mais perto, Sophia mais dentro, Sophia para todos.

Sophia por Fernando Lemos

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia

18
Nov
09

Prato de figos

Também a poesia é filha
da necessidade –
esta que me chega um pouco já
fora do tempo,
deixou de ser sumarenta alegria
do sol sobre a boca;
esta, perdida a húmida
e nacarada pele adolescente,
mais parece um desses figos
secos ao sol de muitos dias
que no inverno sempre se encontram
postos num prato
para comeres junto ao fogo.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Agosto 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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