Posts Tagged ‘rosto

10
Set
14

Rosto afogado

Para sempre um luar de naufrágio

anunciará a aurora fria

Para sempre o teu rosto afogado,

entre retratos e vendedores ambulantes,

entre cigarros e gente sem destino,

flutuará rodeado de escamas cintilantes.

 

Se me pudesse matar,

seria pela curva doce dos teus olhos,

pela tua fronte de bosque adormecido,

pela tua voz onde sempre amanhecia,

pelos teus cabelos onde o rumor da sombra

era um rumor de festa,

pela tua boca onde os peixes se esqueciam

de continuar a viagem nupcial.

Mas a minha morte é este vaguear contigo,

na parte mais débil do meu corpo,

com uma espinha de silêncio

atravessada na garganta.

 

Não sei se te procuro ou se me esqueço

de ti quando acaso me debruço

nuns olhos subitamente acesos

ao dobrar de uma esquina,

na boca dos anjos embriagados

de tanta solidão bebida pelos bares,

nas mãos levemente adolescentes

pousadas na indolência dos joelhos.

Quem me dirá que não é verdade

o teu rosto afogado, o teu rosto perdido,

de sombra em sombra, nas ruas da cidade?

 

Ninguém te conheceu,

ninguém viu romper a luz na tua cama,

ninguém sabe, nnguém,

que o teu corpo, continente selvagem,

se desvelava por uma pedra branca

atirada contra o nevoeiro.

 

Por isso escrevo esta elegia

como quem oferece a luz dos olhos;

por isso canto o teu rosto afogado

como quem canta um funeral de espigas.

 

In: As Palavras Interditas (1951)

15
Set
12

Exorcismo

O rosto,

o rosto do verão,

a púrpura do fogo,

a aliança, a confiança,

minha guitarra, meu cão de cego –

 

a carícia não encontra a mão,

 

lembra-te.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

10
Maio
10

Outro poema para o meu amor doente

Outono, pássaro da melancolia

num céu sem cor que não promete nada,

mar de insónia onde o teu corpo paira

ou um aroma de terra molhada.

06
Jan
10

Fazer do olhar o gume certo

Fazer do olhar o gume certo,
atravessar a água corrompida,
no avesso da sombra soletrar
o rosto ardido da sede antiga.
24
Set
09

F. P.

De rosto em rosto a ti mesmo procuras
e só encontras a noite por onde entraste
finalmente nu – a loucura acesa e fria
iluminando o nada que tanto procuraste.
5-4-78
05
Jul
09

Retrato

No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.
 
Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, redonda, madura.
 
Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.

 

Notícias da Fundação:
Na sede da Fundação Eugénio de Andrade vai ser apresentado, no próximo sábado, dia 11 de Julho, pelas 18h30, o primeiro livro, Delírio Húngaro, do jovem poeta Nuno Brito. Publicado pela editora que tem o nome de Edita-me, o livro será apresentado por Arnaldo Saraiva e por Manaíra Aires. A entrada é livre.
18
Jun
09

Ouço correr a noite pelos sulcos

Ouço correr a noite pelos sulcos
do rosto – dir-se-ia que me chama,
que subitamente me acaricia,
a mim, que nem sequer sei ainda
como juntar as sílabas do silêncio
e sobre elas adormecer.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Agosto 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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