Posts Tagged ‘sol

10
Abr
14

Havia vento

Era um mês incerto, havia vento,

eu não teria nascido ainda,

ou já teria morrido.

A fronteira entre luz e sombra

era muito difusa. Então

estranhamente o sol pousou

naquele corpo. Corpo que nunca

vira despido, que cheirava

a maçãs maduras.,

com brilhos que desciam

às negras sementes da vida.

Estranhamente o sol demorou-se

nos seus ombros. Um último

brilho, ou suspiro, desprendeu-se.

O ar tremia – apesar disso eu era feliz,

tinha dez ou mil anos, já não sei.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

16
Abr
12

Paisagem

A névoa que desde manhã fechava

as portas todas ao rio foi-se embora.

A luz é fria: esta é agora

a minha terra, o outono.

Todas as terras são afinal as mesmas

folhas cobrindo a relva, às vezes

cintilando quando o sol rasga a névoa.

 

In:  Pequeno Formato (1997)

20
Fev
12

Sobre as sílabas

O assédio do verão, as rolas

dos pinheiros, a risca de sal

das areias; às vezes

chovia – então um barco

de borco era o abrigo,

era o amigo; a chuva abria

o aroma dos fenos, não tardava

o sol em cada sílaba.

 

In: Rente ao Dizer (1992)

15
Nov
11

Coroa de lume

Ouço-o partir, o sol da mão.

O prazer do ofício,

a paciência de areia

abrindo para os caminhos do verão,

também eles a chegar

ao fim. Foi assim que partilhei

o pão, o tão amado

sopro vindo do sul.

Não tardará o sono: já

começou na fala.

É tempo de atirar aos cães

a coroa de lume.


In: Ofício de Paciência (1994)

11
Out
11

Outros ritmos, outros modos

Não é o mar, não é o vento, é o sol

que me dói da cintura aos sapatos.

Sol de fins de Julho,

ou de Agosto a prumo: finas

agulhas de aço.

É o sol destes dias, aceso

na folhagem.

Bebendo a minha água.

Colado à minha pele.

É doutro território, doutro areal.

Tem outros ritmos, outros modos,

outros vagares para roer

a cal, morder-me os olhos.

Até quando cega canta ao arder.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

02
Jan
10

Sobre o coração

Eras a casa, o lugar
onde o sol
ardia sobre a pedra,
a pedra sobre o mundo,
o mundo sobre o coração.
Como podias, uma
a uma, suportar as lágrimas
do mundo, ninguém sabia:
o lugar do sol
era a casa – e ardia.
13
Out
09

Toar um corpo

Toar um corpo
e o ar
e a língua da neve.
 
Toar a erva
mortal e verde
de cinco noites
e ao mar.
 
Um corpo nu.
E as praias fustigadas
pelo sol e pelo olhar.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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