Posts Tagged ‘solidão

22
Set
10

Calcedónia

Afinal os romanos eram

como eu: amavam

os lugares onde a grandeza

e a solidão

andam de mãos dadas.

 

In: Escrita da Terra  (1974)

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01
Set
10

Fecundou-te a vida nos pinhais

Fecundou-te a vida nos pinhais.

Fecundou-te de seiva e de calor.

Alargou-te o corpo pelos areais

onde o mar se espraia sem contorno e cor.

Pôs-te sonho onde havia apenas

silêncio de rosas por abrir,

e um jeito nas mãos morenas

de quem sabe que o fruto há-de surgir.

Brotou água onde tudo era secura.

Paz onde morava a solidão.

E a certeza de que a sepultura

é uma cova onde não cabe o coração.

07
Abr
09

Canção

Hoje venho dizer-te que nevou

no rosto familiar que te esperava.

Não é nada, meu amor, foi um pássaro,

a casca do tempo que caiu,

uma lágrima, um barco, uma palavra.

 

Foi apenas mais um dia que passou

entre arcos e arcos de solidão;

a curva dos teus olhos que se fechou,

uma gota de orvalho, uma só gota,

secretamente morta na tua mão.

22
Maio
08

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.

O seu corpo perfeito, linha a linha,

derramava-se no meu, e eu sentia

nele o pulsar do próprio coração.

 

Moreno, era a forma das pedras e das luas.

Dentro de mim alguma coisa ardia:

a brancura das palavras maduras

ou o medo de perder quem me perdia.

 

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

e longamente bebi os horizontes.

E longamente fiquei até sentir

o meu sangue jorrar nas próprias fontes.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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