Posts Tagged ‘sorriso

14
Maio
10

É um dos teus mais bonitos sorrisos

É um dos teus mais bonitos sorrisos

este Inverno

entornado nas areias.

Entrou pela varanda

com a espuma das vozes infantis.

E com os gatos dos telhados

não tardará a partir.

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20
Abr
09

Aos jacarandás de Lisboa

São eles que anunciam o verão.

Não sei doutra glória, doutro

paraíso: à sua entrada os jacarandás

estão em flor, um de cada lado.

E um sorriso, tranquila morada,

à minha espera.

O espaço a toda a roda

multiplica os seus espelhos, abre

varandas para o mar.

É como nos sonhos mais pueris:

posso voar quase rente

às nuvens altas – irmão dos pássaros –,

perder-me no ar.

27
Jan
09

O sorriso.

O sorriso.

O sorriso aberto

contra o muro.

 

Exactamente

como as ervas,

é muito antigo.

 

E sobre as ervas

e o muro

debruça-se no caminho.

 

Quem o arranca,

e levará consigo?

03
Mar
08

Retrato com sombra

Que morte é a sombra deste retrato,

onde eu assisto ao dobrar dos dias,

órfão de ti e de uma aventura suspensa?

 

Tu não eras só este perfil.

Tu não eras só este sossego aconchegado

nas mãos como num regaço.

Tu não eras apenas

este horizonte de areia com árvores distantes.

 

Falta aqui tudo o que amámos juntos,

o teu sorriso com as ruas dentro,

o secreto rumor das tuas veias

abrindo sulcos de palavras fundas

no rosto da noite inesperada.

Falta sobretudo à roda dos teus olhos

a pura ressonância da alegria.

 

Lembro-me de uma noite em que ficámos nus

para embalar um beijo ou uma lágrima,

lutando, de mãos cortadas, até romper o dia,

largo, intacto,

nas pálpebras molhadas dos lírios.

 

Tu não eras ainda este perfil

com uma rosa de cinza na mão direita.

Eu andava dentro de ti

como um pequeno rio de sol

dentro da semente,

porque nós – é preciso dizê-lo –

tínhamos nascido um dentro do outro

naquela noite.

 

Esse é o teu rosto verdadeiro;

o rosto que vou juntando ao teu retrato

como quando era pequeno:

recortando aqui,

colando ali,

até que uma fonte rasgue a tua boca

e a noite fique transbordante de água.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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