Arquivo de Setembro, 2008

30
Set
08

Vegetal e só

É outono, desprende-te de mim.

 

Solta-me os cabelos, potros indomáveis

sem nenhuma melancolia,

sem encontros marcados,

sem cartas a responder.

 

Deixa-me o braço direito,

o mais ardente dos meus braços,

o mais azul,

o mais feito para voar.

 

Devolve-me o rosto de um verão

sem a febre de tantos lábios,

sem nenhum rumor de lágrimas

nas pálpebras acesas.

 

Deixa-me só, vegetal e só,

correndo como rio de folhas

para a noite onde a mais bela aventura

se escreve exactamente sem nenhuma letra.

29
Set
08

Eros de passagem

1.

Apelo da manhã perdido em flor:

ave seria se não fosse ardor.

 

2.

Pelo sabor da água reconheço

a ternura e os flancos do verão.

 

3.

Um corpo brilha nu para o desejo

dançar na luz a pique das areias.

 

4.

Nas águas rumorosas da memória

contigo acabo agora de nascer.

 

5.

O vento inclina as hastes à luz dura:

a terra está próxima e madura.

28
Set
08

Sei de uma pedra onde me sentar

Sei de uma pedra onde me sentar

à sombra de um setembro quase no fim.

 

Havia ainda as mãos, mas tão cegas

que nenhuma encontrará o sol.

 

 É o que têm: desejo de toar

o barro ainda quente do silêncio.

27
Set
08

Canção desesperada

Nem os olhos sabem que dizer

a esta rosa de alegria,

aberta nas minhas mãos

ou nos cabelos do dia.

 

O que sonhei é só água,

água só, roxa de frio.

Nenhuma rosa cabe nesta mágoa.

Dai-me a sombra de um navio.

25
Set
08

Arte dos versos

Toda a ciência está aqui,

na maneira como esta mulher

dos arredores de Cantão,

ou dos campos de Alpedrinha,

rega quatro ou cinco leiras

de couves: mão certeira

com a água,

intimidade com a terra,

empenho do coração.

Assim se faz o poema.

24
Set
08

Ao Luis Miguel Nava, noutra estrela

Dizem que foste tu

a escolher a violência

da tua morte, num acorde perfeito

com os teus versos. Não é verdade:

tu sabias que nenhum inferno

é pessoal, por isso procuravas

um rio onde ardesses

para voltares a nascer longe da terra.

Apenas isso – o resto é merda.

 

 

Sobre Luís Miguel Nava…

 

Luís Miguel Nava (1957-1995), poeta e crítico literário, natural de Viseu, considerado por muitos como a revelação mais importante na poesia portuguesa da década de 80. Publicou o seu primeiro livro de poemas – Perdão da Puberdade – em 1974 e, um ano depois, conheceu Eugénio de Andrade, que viria a ser uma referência e um amigo. Em 1978, recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores com a obra Películas, editada em 1979. Em 1980, terminou a licenciatura em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Entre 1981 e 1983 foi assistente nessa mesma Faculdade, e, em 1983, partiu para a cidade de Oxford como leitor de português e, passados três anos concorreu a um lugar de tradutor da então Comunidade Económica Europeia. Ganha o concurso e instala-se em Bruxelas em 1986, onde morrerá assassinado em 1995.

 

O céu (de Luís Miguel Nava)

 

Assoam-se-me à alma, quem

como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem

dizer estas palavras.

A pele serve de céu ao coração.

 

 

 

23
Set
08

A porta

Porque

por essa porta

sobre a rugosa luz da tarde

terás ainda tempo

de pegar nos pés e meter-te a caminho,

sem raízes

a enredar-te os passos,

pois para a morte

não tens ainda palavras,

ainda não, ainda não, ainda não.

22
Set
08

Casa no sol

A casa é branca, branca de cal (que de todos os brancos é o único que é branco), debruada de azul, por ser à beira-mar a cor da alegria. Branca e fechada – não vá o sol que arde nos telhados penetrar insidiosamente por alguma fresta e incendiar o silêncio melindroso da alcova. A obscuridade quase não consente a contemplação do rosto infantil que ali dorme até o sol ter amansado. Só então desperta e se refugia nos braços que já o esperam.

Por esse rapazito serias capaz de correr o mundo a pé-coxinho, se ele to pedisse, ou entrar pelo buraco da fechadura só para o veres dormir.

 

31.12.85

21
Set
08

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

 

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

 

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

 

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

 

Adeus.

20
Set
08

Ensina-me, ensina-me como se faz

Ensina-me, ensina-me como se faz

do barro essa canção,

essa luz que vi mudada em pedra

viva nos teus olhos.

 

Estou a falar de mim como se não fora

estrangeiro, o espinho

indolor da neve cravado na garganta.

Já não desço à pequena praça

 

onde cantam os anjos: o anel

caiu à água.

Aqui, dizem, morre-se melhor: o ar

é frio, o campo raso, roxo o orvalho.

 

É pouco o que desejo,

e desse pouco me despeço.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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