Arquivo de Dezembro, 2013

16
Dez
13

6 anos de Sal da Língua

O Sal da Língua comemora seis anos. Comecei esta aventura  no dia 14 de dezembro de 2007 e nunca mais parei. Com maior ou menor frequência a proposta mantém-se: divulgar a poesia e prosa do poeta português Eugénio de Andrade. Agradeço as mais de 80000 visitas ao longo destes anos e conto com vocês para celebrarmos as palavras de Eugénio e de outros poetas e escritores que tanto enriquecem o nosso património enquanto país. Agradeço também à Biblioteca Municipal do Porto por ter incluído o Sal da Língua na Biblioteca Digital sobre o poeta e agradeço ao blogue/editora Vidráguas, o irmão brasileiro do Sal da Língua, que deu todo o apoio à divulgação do poeta do outro lado do Atlântico.

Em jeito de celebração, aqui fica um retrato de Eugénio de Andrade pintado pelo seu grande amigo e poeta das cores Júlio Resende. Já publiquei alguns dos textos que Eugénio dedicou ao amigo Resende, um dos quais no dia 25 de setembro de 2011 com o título “Resende nosso contemporâneo”.

Um abraço a todos,

Raquel

Eugénio de Andrade por Júlio Resende

Eugénio de Andrade por Júlio Resende

 

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09
Dez
13

A Jorge de Sena, no chão da Califórnia

É por orgulho que já não sobes

as escadas? Terás adivinhado

que não gostei desse ajuste de contas

que foi a tua agonia?

É só por isso que não vieste

este verão bater-me à porta?

Não sabes já

que entre mim e ti

há só a noite e nunca haverá morte?

 

Não te faltou orgulho, eu sei;

orgulho de ergueres dia a dia

com mãos trementes

a vida à tua altura

− mas a outra face quem a suspeitou?

Quem amou em ti

o rapazito frágil, inseguro,

a irmã gentil que não tivemos?

 

Escreveste como o sangue canta:

de-ses-pe-ra-da-men-te,

e mostraste como não é fácil

neste país exíguo ser-se breve.

Talvez o tempo te faltasse

para pesar com mão feliz o ar

onde sobrou

um juvenil ardor até ao fim.

 

No que nos deixaste há de tudo,

desde o copo de água fresca

ao uivo de lobos acossados.

Há quem prefira ler-te os versos,

outros a prosa, alguns ainda

preferem o que sobre a liberdade

de ser homem

foste deixando por aí

em prosa ou verso, e tangível

brilha

onde antes parecia morta.

 

Às vezes orgulhavas-te

de ter, em vez de uma, duas pátrias;

pobre de ti: não tiveste nenhuma;

ou tiveste apenas essa

que te roía o coração,

fiel às palavras da tribo.

 

Andaste por muito lado a ver se o mundo

era maior do que tu – concluíste que não.

Tiveste mulher e filhos portuguesmente

repartidos pela terra,

e alguns amigos,

entre os quais me conto.

E se conta o vento.

 

Agosto, 78

In: Homenagens e Outros Epitáfios (1974)

 

Mais sobre Jorge de Sena:

Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de junho de 1978. É hoje considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do nosso século XX. Viveu no Brasil entre 1959 e 1965 e de 1965 até 1978, ano em que morreu, viveu nos Estados Unidos. A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov). (Fonte: Instituto Camões)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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