Posts Tagged ‘vento

10
Abr
14

Havia vento

Era um mês incerto, havia vento,

eu não teria nascido ainda,

ou já teria morrido.

A fronteira entre luz e sombra

era muito difusa. Então

estranhamente o sol pousou

naquele corpo. Corpo que nunca

vira despido, que cheirava

a maçãs maduras.,

com brilhos que desciam

às negras sementes da vida.

Estranhamente o sol demorou-se

nos seus ombros. Um último

brilho, ou suspiro, desprendeu-se.

O ar tremia – apesar disso eu era feliz,

tinha dez ou mil anos, já não sei.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

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22
Set
13

Na orla do mar

Na orla do mar,

no rumor do vento,

onde esteve a linha

pura do teu rosto

ou só pensamento

(e mora, secreto,

intenso, solar,

todo o meu desejo)

aí vou colher

a rosa e a palma.

Onde a pedra é flor,

onde o corpo é alma.

 

In: Até amanhã (1956)

05
Out
11

Em cada fruto a morte amadurece

Em cada fruto a morte amadurece,

deixando inteira, por legado,

uma semente virgem que estremece

logo que o vento a tenha desnudado.

 

In: As Mãos e os Frutos (1948) 

26
Maio
11

Tebas

Era um lugar onde só

a poesia

me podia ter levado –

lugar de morte, a luz

roída,

rala.

Até a minguada

romãzeira

era de pedra.

O vento

acrescenta-lhe a poeira.

 

In: Escrita da Terra (1974)

02
Maio
10

No meu desejo

Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.

23
Ago
09

Acorde

Onde passou o vento
são altas as ervas,
e os olhos água
só de olhar para elas.
12
Maio
09

Os frutos

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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