Posts Tagged ‘silêncio

12
Set
14

Que voz lunar?

 Que voz lunar insinua

o que não pode ter voz?

 

Que rosto entorna na noite

todo o azul da manhã?

 

Que beijo de oiro procura

uns lábios de brisa e água?

 

Que branca mão devagar

quebra os ramos do silêncio?

 

In: Mar de Setembro (1961)

03
Set
13

Respira devagar, respira

Respira devagar, respira

uma vez mais

o sopro reticente do silêncio;

não oiças a mutilada voz do chão:

não é o primeiro orvalho

que chama por ti;

não abras as portas todas à lenta

e velha e turva baba

da tristeza;

respira esse rumor: nem mar nem ave,

apenas um ardor que também morre,

devagar.

In: Contra a Obscuridade (1988)

26
Out
11

Com o tempo aproximar-se-ão os rios

Com o tempo aproximar-se-ão os rios

e os montes, com o tempo

acabará por te vir comer à mão

e fazer ninho na tua cama

o silêncio


 

In: O Peso da Sombra (1982)

06
Jul
11

As nascentes da ternura

1

No espaço de um relâmpago

os olhos reflectem os navios.

 

2

O silêncio brilha acariciado.

 

3

O silêncio é de todos os rumores

o mais próximo da nascente.

 

4

Só água era, e sem memória.

 

5

Claridade sem repouso, ó claridade,

aguda nos juncos, nas pedras rasa.

 

6

É no ardor dos cardos

que o vento faz a casa.

 

7

Da pedra à cal, do sal à espuma,

amo a pobreza e a brancura.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

04
Jul
11

Variação sobre um tema antigo

Vem de tão longe que tenho piedade

dos seus cães: abro a porta, aceito

a festa dos animais.

Aproximou as mãos do fogo

e encontrou a flauta, levou-a

à boca: então o silêncio brilhou

acariciado.

 

In: Rente ao Dizer (1992)

27
Jun
11

Sul

Depois de uns dias de pausa, da vida como ela é, num recanto escondido do sul do país, com sal, sol e mar, regresso ao quotidiano. De Eugénio, também o “Sul”.

 

Pelo azul da pedra vê-se que é verão,

à beira do tanque os aloendros devem estar

em flor,

as águas reflectem o silêncio.

 

 In: Escrita da Terra (1974)

28
Fev
11

Escuto o silêncio

Escuto o silêncio: em Abril

os dias são

frágeis, impacientes e amargos;

os passos

miúdos dos teus dezasseis anos

perdem-se nas ruas, regressam

com restos de sol e chuva

nos sapatos,

invadem o meu domínio de areias

apagadas,

e tudo começa a ser ave

ou lábios, e quer voar.

 

Um rumor cresce lentamente,

oh, lentamente

não cessa de crescer,

um rumor de pálpebras

ou pétalas

sobe de terraço em terraço,

descobre um dia

de cinzas com vestígios de beijos.

 

Um só rumor de sangue

jovem:

dezasseis luas altas,

selvagens, inocentes e alegres,

ferozmente enternecidas;

dezasseis potros

brancos na colina sobre as águas.

 

Como um rio cresce, cresce um rumor;

quero eu dizer,

assim um corpo cresce, assim

as ameixieiras bravas

do jardim,

assim as mãos,

tão cheias de alegria,

tão cheias de abandono.

 

Um rumor de sementes,

de cabelos

ou ervas acabadas de cortar,

um irreal amanhecer de galos

cresce contigo,

na minha noite de quatro muros,

no limiar da minha boca,

onde te demoras a dizer-me adeus.

 

Escreve um rumor: é só silêncio.

In: Ostinato Rigore (1964)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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