Posts Tagged ‘lábios

03
Maio
11

Limiar dos Pássaros

Ainda esta poeira sobre o coração

queria que chovesse sobre os ulmeiros

sair limpo desses olhos

da luz que se demora a polir os seixos

 

A corrosiva música das vogais que te devora

o silêncio do muro

às vezes quase azul

o verão afinal onde o ar é mais duro

 

Acordarás com as primeiras chuvas

a floração do trevo doía

o olhar sempre negado

aos cães da mote sempre prometido

 

Estende-te aqui

perto do oiro branco das cigarras

já tenho ouvido chegar o verão

a sua frágil quilha em águas quase mortas

 

A clara desordem dos cabelos

(dos cavalos não é ainda tempo)

a fundula da pupila

os lábios por dentro finalmente acesos

 

Tudo o mais te direi sobre o teu peito

à superfície uma poeira fresca

como quem escuta sobre a erva

as nascentes do fogo

 

Sem mácula não há luz sobre os joelhos

é um corpo de amor este que temos

até ao chão

da água mais exígua

 

Amar a boca fatigada do corpo

ou outra ainda mais estéril

entrar

onde o silêncio desce às fontes

 

Morrer e não morrer sobre os teus rins

uma árvore de pássaros ardia

era verão escuta os seus cavalos

à roda da cintura

 

O cálido esperma das palavras

no interior do cabelo derramado

um sol de palha fresca a boca

de que rio regressa?

 

Dessa cal de homem rompe a lua

de sol extenuada

ergue-se de gume em gume e cai

no espelho a prumo das espadas

 

Falar dizer de outra maneira

as labiais bebidas corpo a corpo

deambular pelas pernas pela boca

abandonar-me entre as pedras à poeira

 

Onde fluvial a meio da noite

cresce a pedra

branca dos álamos

as crianças dormem com os pássaros

 

Um corpo ao crepúsculo lido pelo vento

chama-se música

esta queda no escuro

rente ao murmúrio

 

Dizer como um rosto se extingue sem cessar

que farei deste nome que me sobra?

Eu tinha duas mãos que te queriam

grandes olhos de pássaro fulminado

 

Como dizer que vai morrendo

sobre pedras sem nome

la prima voce che passò volando

distante já da nossa idade?

 

Ninguém sabia de onde vinha

atravessara a noite do olhar

e o medo e o êxtase das espadas

o amor que é sempre argila branca

 (continua …)

In: Limiar dos Pássaros (1976)

12
Abr
11

Retrato ardente

Entre os teus lábios

é que a loucura acode

desce à garganta,

invade a água.

 

No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.

 

Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.

 

Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.

 

Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.

In: Obscuro Domínio (1972)

25
Maio
10

O inominável

Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
– nem sequer sabemos se tens nome.

23
Maio
10

Ocultas águas

Um sopro quase,
Esses lábios.
 
Lábios? Disse lábios,
areias?
Lábios. Com sede
ainda de outros lábios.
 
Sede de cal.
Quase lume.
Lume
quase de orvalho.
 
Lábios:
ocultas águas.
28
Ago
09

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver entre lábios fendidos
o ardor da luz orvalhada.
 
Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio flui
e se concentra.
 
Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.
 
Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,
 
no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,
 
onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.
07
Jun
09

Eros Thanatos

1
Ó pureza apaixonadamente minha:
terra toda nas minhas mãos acesa.
 
2
O que sei de ti foi só o vento
a passar nos mastros do verão.
 
3
Um corpo apenas, barco ou rosa,
rumoroso de abelhas ou de espuma.
 
4
Entre lábios e lábios não sabia
se cantava ou nevava ou ardia.
 
5
Amo como as espadas brilham
no ardor indizível do dia.
 
6
Seria a morte esta carícia
onde o desejo era só brisa?
06
Maio
09

Rumor

Quando o outono
já não pode senão melancolia
é que o secreto rumor da água
inunda os lábios de oiro.
30
Jan
09

Trago os tordos na cabeça

Trago os tordos na cabeça desde os campos

d’Atalaia para pôr neste poema –

o vento deixava-nos à porta

ora uma luz rasteira ora um esfarelado

chiar de carros de feno,

dos ramos altos

a tarde caía nos cabelos,

vivíamos sem pressa rente aos lábios.

15
Jan
09

A música

De alma e coração ainda mareados por gentes e terras que marcaram estas últimas semanas, regresso ao sal da nossa língua para desejar a todos um 2009 cheio de motivos para sorrir e de sorrisos sem motivo!

 

 

Álamos —

música

de matutina cal.

 

Doces vogais

de sombra e água

num verão de fulvos

lentos animais.

 

Calhandra matinal

no ar

feliz de junho.

 

Acidulada

música de cardos.

 

Música do fogo

em redor dos lábios.

 

Desatada

à roda da cintura.

 

Entre as pernas,

junta.

 

Música

das primeiras chuvas

sobre o feno.

 

Só aroma.

Abelha de água.

 

Regaço

onde o lume breve

de uma romã brilha.

 

Música, levai-me:

 

Onde estão as barcas?

Onde são as ilhas?

 

Notícias da Fundação:

Na passagem do 86º aniversário do nascimento de Eugénio de Andrade, a Fundação que tem o seu nome fará na próxima segunda-feira, dia 19, pelas 18h30, o lançamento de uma nova edição de À Sombra da Memória. Na sessão de lançamento o Dr. António Oliveira fará a apresentação do livro, para o qual Gonçalo M. Tavares escreveu um texto original, que será lido, assim como outros textos de Eugénio de Andrade.

A entrada é livre.

 

 

 

 

 

19
Nov
08

Serenata

Venho ao teu encontro a procurar

bondade, um céu de camponeses,

altas árvores onde o sol e a chuva

adormecem na mesma folha.

 

Não posso amar-te mais,

luz madura, espaço aberto.

Não posso dar-te mais do que te dou:

sangue, insónias, telegramas, dedos.

 

Aqui estou, fronte pura, rodeado

de sombra, de soluços, de perguntas.

Aceita esta ternura surda,

este jasmim aprisionado.

 

Nos meus lábios, melhor: no fogo,

talvez no pão, talvez na água,

para lá dos suplícios e do medo,

tu continuas: matinalmente.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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