Archive for the 'PROSA' Category

12
Jun
13

A Domingos Peres das Eiras, com umas violetas

Há nomes que a nossa memória recusa guardar sozinhos. Não é que não tenham em si mesmos sortilégio bastante para atravessarem a morte desamparados, mas apenas porque a nossa imaginação lhes deu um rosto de homem, numa idade em que, sem um rosto, nenhuma imagem, por mais próxima ou menos degradada, se tornaria dócil e convivente. Junto dos muros calcinados de Tróia, como poderemos escapar à feroz sedução da figura de Aquiles? Até à roda dos meus vinte anos, o Porto e um «bom cidadão do lugar» estavam tão religados no meu espírito, que eu amava a cidade só através de um rosto – o de Domingos Peres das Eiras. Naquelas falas, que Fernão Lopes pôs na sua boca, era a masculina música das palavras sem vileza que eu escutava, e o seu rosto, de que nenhum de nós conhece as feições, uma das poucas imagens de hombridade portuguesa, que eu juntava a outras, num tempo em que a juventude não cessa de crescer. Quem não se recorda das palavras com que responde ao enviado do Mestre de Avis? «Eu digo por mim e por todo este poboo que aqui esta, que nos somos prestes com boa voomtade de servir o Meestre, nosso Senhor, e fazermos todo o que ell mamdar por seu serviço e deffemssom do rregno. Ca já ell seeria huu estranho que nos nom conheçeriamos, e quamdo sse ell desposesse ataaes trabalhos e perigoos por nos deffemder e emparar, nos o serviriamos com os corpos e averes; moormente seer elle filho delRei dom Pedro como he…» Ainda hoje não consigo ler estas linhas sem uma leve agitação nas águas que em mim parecem mais mortas, e, ainda hoje, o que amo nesta cidade é essa música primeira que, alguns séculos depois, ressoaria na prosa de Herculano. Domingos Peres das Eiras é o seu nome – dizia eu aos amigos, quando visitei o Porto pela primeira vez, num entardecer já distante, ali, no terreiro do Convento da Serra, fascinado por todo aquele casario que se derramava às golfadas no Douro, as fachadas roídas pelos dias húmidos e viscosos, onde uns restos de sol fulguravam nas janelas e nos telhados, e as torres mais hirtas pareciam recuar na noite, que principiara a cair. – Precisas de ler Camilo – responderam-me. Eu calei-me: não era forte em Camilo. Pensava no espírito tão genuinamente popular desta terra, a que se encontrava vinculada a mais alta das suas virtudes, o seu esprit de fronde, que conquistou o privilégio de banir a nobreza dos seus muros e não permitiu ao Tribunal do Santo Ofício celebrar aqui mais que um só auto-de-fé. Que me importava a mim, naquele momento, o que dissera Camilo do Porto? Poderia alguém, Camilo ou quem quer que fosse, negar aquela beleza desgrenhada e áspera que tinha diante dos olhos? Só mesmo quem fosse cego de nascença.

Fiquei então por cá dois ou três dias. O Ernesto mostrou-me o mar da Foz, a Cantareira, o «cabedelo de oiro», que Raul Brandão diz ter conservado sempre na retina; com a Sophia passei uma tarde nos jardins abandonados da Quinta do Campo Alegre, eu próprio abandonado ao som da sua voz que se misturava com o jorrar das águas e o cheiro resinoso e marítimo dos pinheiros; o Aires levou-me de corrida a ver, não o coração de D. Pedro, como sugeria o motorista do táxi, mas os negrilhos da Cordoaria, as tílias do Palácio, as magnólias de S. Lázaro, o jacarandá e o cedro glauco do Largo de Viriato; ao Eduardo fiquei a dever o Pousão do Palácio dos Carrancas e a Torre dos Clérigos com versos de Pascoaes à mistura. Quanto a Camilo, só o li – e mal é certo! – muitos anos depois: quando voltei ao Porto para ficar. Quem o nega? Camilo viu do Porto a outra face, a do «burgo antigo com a sua dinastia de comerciantes», que o Eça também lhe descobre, sem contudo lhe negar o que lhe negou Camilo – a honradez: «O bom portuense se quiser ter foros de cidadão terá de provar que o bisavô veio para a cidade com uma broa e meio presunto no saco, escarranchado sobre dois costais de castanholas; que o avô teve balcão de fazendas brancas e foi irmão do Santíssimo, irmão benemérito da Misericórdia, e vinte anos a fio vestiu balandrau para pegar ao andor de Nossa Senhora. Item, que o pai era, sem vergonha do mundo negociante de quatro portas, afora os postigos por onde passava o contrabando; que sua mãe fora uma gorda e boa mulher que remendava, passajava e sabia mesmo deitar uns fundilhos nas calças do marçano e nunca na vida tivera pacta com letra redonda.» Era isto o Porto, na juventude de Camilo? Se pensarmos no pendor caricatural e polémico do autor de Amor de Perdição, nas circunstâncias em que tais palavras, e outras, e outras, foram escritas (poucas vezes, como aqui, o verso de Pessoa «Compra-se a glória com desgraça» terá tido tanta ressonância), poder-se-á objectar que a imagem está um tanto ou quanto desfocada; ou se preferem: não seria o provincianismo apelintrado, que se despeja inteiro na cidade da Virgem, afinal, característica de todo o país? Do país…, do país…, que pensava Camilo? Oiçam-no! «Quando se fará ao menos inodora esta cloaca de Portugal?» Azedo, agastado, doente, «escouceado» numa terra que lhe não perdoava o sarcasmo, como a Garrett não perdoou a ironia, Camilo ainda pôde, contudo, escrever a um amigo: «Estou triste. Aproxima-se a hora de deixar para sempre esta terra, onde, a par de muitos dissabores, experimentei alegrias instantâneas. Não é da gente que tenho saudades. É de não sei quê…» São realmente muito tortos os caminhos do amor.

Mais do que o sarcasmo de Camilo, que disfarçava, ao fim e ao cabo, uma ternura por esta gente metida nos seus «tamancos estóicos» (se assim não fora, como explicar que lhe tenha mordido e remordido o coração?), surpreende o desprezo de António Nobre, nascido na Rua de Santa Catarina, educado em colégios da Rua Formosa e da Rua de Cedofeita, que guardará o seu amor para os subúrbios da cidade. O dandy das praias de Leça tinha a sua opinião formada, e a sua opinião era a de Eça de Queirós, como comunicará de Paris a Alberto de Oliveira: «Jesus! Que terra! Verdadeiramente inabitável!» Pobre moço, coitado! Não tardaria em saber que não só o Porto, mas todo o planeta, é inabitável. E acabará – oh, má sina do poeta! – os seus dias na Foz a murmurar: «Que lindo que isto é!» Que descanse em paz. Ámen.

Aquele que foi o irmão maior de Nobre – «Garrett da minha paixão…» – será com o Porto bem mais generoso. Para lá do «grande aldeão» que lhe atirou à cara, teceu ao seu exemplar espírito de liberdade o mais belo hino de que esta terra se pode orgulhar, além de ter lavrado ainda, «em recta pronúncia e frase de brasão», um decreto em que todos os seus títulos de nobreza lhe são confirmados por despacho régio, e de lhe reformar as Armas, onde «lhe coloca, em escudo de honra, no meio, o coração de D. Pedro…» Nem assim o «leal, paciente e bom povo» da sua cidade lhe perdoou os versos de juventude – Garrett nunca será eleito deputado pelo Porto, como tanto ambicionou. Em carta a Gomes Monteiro, datada de 23 de Junho de 1838, escreverá: «Quanto a mim, sem falsa modéstia, nem escrúpulo algum, lhe digo que trago atravessado na garganta, o não ser eleito pela minha terra…» Em 1840, ainda se queixa ao mesmo amigo: «Eu sou do Porto, dói-me se não me elegerem os meus patrícios porque em verdade mereço-lho». Em verdade, merecia-o, e o Porto perdeu uma ocasião única em demonstrar que não era «aldeão» ao mais civilizado dos seus filhos.

A grande trindade poética que lavra, nesta pedra escura, o perfil seguro do Porto – Fernão Lopes, Garrett e Camilo – leva fatalmente à cidade uma pessoal visão de mundo, o seu génio próprio. O Porto de Fernão Lopes é quase legendário: heróico e honrado; o de Camilo, grotesco e dramático; o de Garrett irónico, pitoresco e sentimental. São três tempos (em duplo sentido: histórico e musical) do seu carácter que, embora esquematicamente enunciados, nos permitem algumas aproximações. A cidade viril de Fernão Lopes é ainda a de Herculano, Ramalho, Jaime Cortesão e Miguel Torga; Raul Brandão, Pascoaes e Agustina estão, de algum modo, na continuação do pessimismo de Camilo; de Garrett parte, dessorada, perdido por completo o seu impenitente humor, toda uma toada que de Júlio Dinis e António Nobre vem desaguar em tanta loa tacanhamente regionalista e deprimente. Isto para falarmos apenas de quem mais se debruçou na alma destas pedras, bem pouco transparente, como se vê.

Não sei como é que a palavra se insinuou: convenhamos que vem pouco a propósito. A transparência é aqui nostalgia: até a luz terá a cor do granito. Mas o granito é às vezes de oiro velho, e outras azulado, como o luar escasso que nesta noite de outono escorre dos telhados. Quando o sol, mesmo arrefecido, incide nos vidros, as mil e uma clarabóias e trapeiras e mirantes da cidade enchem o crepúsculo de brilhos – o Porto parece então pintado por Vieira da Silva: é mais imaginário que real. Para as bandas de S. Lázaro, as ruas estão coalhadas de silêncio. Os passos de quem regressa tarde a casa são raros, até os mais leves se ouvem à distância. Na noite alta, o repuxo do jardim tem a nitidez de um coração muito jovem. Fora as magnólias, não há árvore com folha. Os bancos estão desertos – os trolhazitos que por aqui se aquecem ao sol, à hora do almoço, devem ter adormecido nalgum canto dessas casas em vias de construção, que há um pouco por toda a parte. Dormem enrolados no friinho que principia a rondar. Os cafés fecham as últimas portas. Saem os retardatários um pouco aos bandos, quase todos jovens. Barulhentos, sem pressa, encaminham-se para a Batalha. Um automóvel, rápido; outro; outro ainda. Um dos moços assobia. As palavras da canção ecoam-me na cabeça:

If you’re going to San Francisco

be sure to wear some flowers in your hair…

Param a olhar os cartazes de um cinema. São realmente muito novos e, como poldrinhos amedrontados, juntam-se, empurram-se uns aos outros, aos berros: – Não viste nada, pá, quem viu fui eu! – É um adolescente de camisola alta, os cabelos à Shelley, as calças cingidas. Que teria ele visto, que deixou de assobiar? A Mónica Vitti entrar no Hotel da Batalha? O rei Édipo atravessar a praça pela mão de Antígona? Os Beatles empoleirados na estátua de D. Pedro V? Ou o rosto que eu procurava na noite – o rosto sem feições conhecidas de Domingos Peres das Eiras, escoando-se, solerte, pela Rua de Cimo de Vila? Sigo-lhe a sombra, distanciado, e logo lhe perco o rasto. Talvez tenha entrado numa daquelas casas estreitas e encardidas, de letreiros pendurados no portal, anunciando «Dormidas» em letras vermelhas. De uma ou outra janela exígua, uma luz bafienta escapa-se, a custo, entre as portadas espessas. Inesperadamente, ouvem-se uns risos meio aloucados de rapariga, o ranger de uma porta que hesitou em abrir-se , logo uma voz muito frágil, rasteirinha: – Fica ainda um pouco, Miguel. – Eis a Rua Chã, a Rua Chã das Eiras, como outrora se dizia. Aqui, dentro de portas, a mais triste das máscaras de Eros fascinava ainda alguns solitários. Dois soldados olhavam as vidraças foscas. Um velhote aproximou-se a cantarolar, pediu-me um cigarro. – Contente, hem?! – Pois…, a vida são dois dias. – Ou menos, homem. E donde tira você a alegria? – Olhe, do sol… – O velhote fitou-me. Não posso jurar que sorrisse, mas os seus olhos brilhavam no escuro. Ainda me ocorreu perguntar-lhe: – E quando chove? E olhe que chove muito no Porto! – Mas fiquei calado. Um homem que arranca alegria do sol tem direito a ser respeitado. O velho sumiu-se por uma viela abrindo em arco. A Sé via-se já de flanco. No empedrado do terreiro, os passos crepitavam. Só o barulho das motorizadas conseguia atravessar tanto silêncio. As colinas de Gaia estão cheias de luzes coadas por uma neblina rala que jamais se extingue. Não há nenhuma cidade, assim, que subitamente não se torne secreta. No rio, junto ao cais, distinguiam-se dois ou três barcos de carga, no meio do tremor mercantil dos anúncios luminosos. No negrume dos telhados, quebrado nas ruas mais próximas quase só pela brancura de uns lençóis a secar às janelas, rompem as agulhas das igrejas – lancinantes. Quatro ou cinco mimosas trepam miudinhas. É outono, creio que já o disse: a terra cheira bem. No Carmo já deve haver violetas à venda. Preciso passar por lá amanhã: tenho a quem enviar um ramo. A noite embaciara à medida que crescera, mas vislumbrava-se ainda, lá ao fundo, uma torre esgalgada. O assobio recomeçou, não sei onde, talvez na Rua Escura ou na de S. Sebastião. Mas agora era outra a música que tinha dentro de mim:

«Para a minha alma eu queria uma

torre como esta,

assim alta,

assim de névoa acompanhando o rio.»

 

Para saber mais sobre Domingos Peres das Eiras: http://www.jn.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=690154

06
Abr
12

Porto

O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito  que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar. O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lárimas todas das crianças de S. Vítor correndo nos sulcos da sua melancolia. O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me assim cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida. Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal.


In: A Cidade de Garrett (1993)

17
Mar
12

Na morte de Carlos de Oliveira

É assim, nem sequer nos permitem o silêncio a que nos obrigaria morte tão próxima. O que nos pedem, a nós que não somos Goethe nem para lá caminhamos, é que da nossa dor façamos o poema. Mas para isso não estamos ainda preparados: só se escreve de olhos enxutos, e esta morte, a morte de um amigo que vem da nossa juventude, não se pode arrumar na gaveta enquanto alinhamos algumas sílabas que não sejam de todo indignas de um homem que foi, entre nós, dos raros a saber do seu ofício.

A sua prosa, a sua poesia – e em Carlos de Oliveira nem sempre é fácil distinguir uma da outra – , ao contrário de tanta produção nacional, com o tempo é que foi ganhando apuro e ardor. A sua poesia é outra depois de Cantata, os seus romances vão sendo outros à medida que os vai reescrevendo. Esta obsessão pelo rigor, esse minucioso trabalho de abelha, esta arte cujo empenhamento mais árduo é ser aprendizagem permanente, é o que mais gostamos nele. Foi assim que, graças ao seu «trabalho de plaina», certa declamação espúria e algumas apóstrofes cívicas foram ficando pelo caminho, e se erguem à altura dos nossos olhos as cintilações e os frémitos da sua poesia última. Para nossa alegria, se esta palavra tem neste momento qualquer sentido.


In: Os Afluentes do Silêncio (1968)

22
Set
11

Ver e dar a ver

Ele era o que sabia sem ter ar de saber. Ao contrário de Almada, Pomar ou Lanhas, Resende deixa que o pincel ou o lápis pensem por ele. Avesso a especulações, a pintura atravessa-lhe o corpo todo: era um parente natural de Goya, que Resende, quando jovem, copiará aplicadamente no Prado, numa aprendizagem do ofício, paciente e humilde. A tal mestre será fiel toda a vida; a prová-lo aí está essa cópia, que é dos raros óleos emoldurados nas paredes de sua casa – esta casa que o Carlos Loureiro lhe fez, como fato por medida, ali no Gramido, em cima do Douro, tão discreta e oculta pelo arvoredo que não se dá por ela senão quando já nos encontramos no seu interior, e cujo estreito corredor conduz directamente ao atelier, recebendo a luz das ramagens altas do sol através da grande vidraça, que é toda a parede do fundo. Isolado do resto da casa; há mesmo ali uma escada estreita que leva a uma pequena câmara com divã e mesa de trabalho. É neste isolamento, rodeado de telas vazias encostadas à parede, e uma mais pequena no cavalete com sinais doutra aventura ter começado, e livros, discos, tintas, revistas, e os mais inesperados objectos – máscaras africanas, instrumentos musicais brasileiros, amostras de terra trazidas das viagens – que o podeis encontrar todos os dias, mesmo aos sábados, e domingos, e dias santos de guarda, a trabalhar desde que o sol rompe até quase se extinguir na vidraça. Falta-me dizer que nas paredes, além de cartazes de exposições suas, há alguns retratos: um de Picasso e mais de meia dúzia do Daniel, o seu neto, como notas musicais em crescendo. Vestindo calças de bombazina e camisola, ambas desajustadas, é uma presença discreta, de uma serenidade que os cabelos brancos acentuam, com alguma juventude ainda a refugiar-se no sorriso um nadinha irónico, um olhar que não foge nunca ao espírito inquisitivo doutro olhar. Está agora sentado numa cadeira de verga, o cachimbo acabado de acender, os olhos fixos no trabalho do cavalete; de repente levanta-se, larga o cachimbo, pega no pincel, esquece-se do tempo, sem saber de ciência certa onde é que a sua energia e o sortilégio das cores o poderão levar. Volta a sentar-se, dá uma olhadela ao quadro e, mais tranquilo, escolhe um disco; durante alguns compassos abandona-se à Viagem de Inverno. No atelier a luz é fina e doirada, como se fora Rembrandt a fazê-la. A pensar num e noutro, em Rembrandt e em Shubert, porque a ambos amava, Resende pega no bloco, na mina de carvão, e abandona-se ao que o instante tem de doçura leve e transparente, no fim de tarde daquele verão. Uma linha começa a dançar na página branca; sem qualquer hesitação, a mão segue-lhe o rasto, é agora uma figura aérea que baila, vai, vem, corre, arrasta com ela uma poeira de oiro fremente, porque, como já sabemos, era verão. Toda a energia humana se concentra naquela perseguição do tempo, ou antes, numa íntima fracção de tempo, milimetricamente calibrado. Entre aquelas paredes tudo foi perdendo sentido, a ponto de o pintor já não saber se está a sonhar ou, como no conto Borges, a ser sonhado. Porque é da irrealidade do real e da realidade da imaginação que estas linhas, traçadas por mão conhecedora, nos falam. E continuarão a falar.

Chegado aos setenta, qualquer artista já acumulou sofrimento que baste para entrar no paraíso. E mais do que isso: já teve muita ocasião de transformar o sofrimento em alegria – porque é alegria o que toda a arte nos comunica, mesmo das funduras da tristeza. “Eu quero fazer milagres”, dizia Leonardo da Vinci; e nunca fez outra coisa. Resende chegou a essa idade em que a sabedoria de confunde com a indiferença pelas coisas do mundo, atento apenas ao seu trabalho, e a palavra tem aqui uma carga explosiva: significa paixão. Paixão em exprimir essa coisa tão simples e tão exaltante: estar vivo sobre a terra, responder à luz com a luz, à cor com a cor, ao olhar com o olhar. Dizer numa simples linha o que pensam os seus olhos, é a tarefa do pintor. Louvemos, em tempo de catástrofe e de cólera, o que nos resta de limpo sobre a terra – parecem dizer-nos estes traços, estas cores – louvemos a terra e as suas criaturas. Cada artista é assim uma espécie de S. Francisco cantando, por sua conta e risco, um hino à criação. “Cantar é ser”, diz o poeta dos Sonetos a Orfeu, e ser é “expor-se, na nudez mais completa, só e sem amparo”, diz por sua vez o nosso pintor. Só e sem amparo, é verdade. E contudo, é dessa solidão que nasce esta maravilha que temos na mão: numa folha de escassos centímetros quadrados surgem dois ou três acordes cromáticos, duas ou três casas baixas, como as da minha infância, uma delas cor de rosa, a outra cor de trigo, e uma árvore de um verde mediterrâneo; à sua roda respira-se melhor, há no ar uma música subtil, ascencional, e tudo é leve, tudo é bom.

Aos setenta anos um homem começa a arrumar a casa, a limpar as gavetas, a rasgar apontamentos, a queimar fotografias que beijava em horas juvenis. Surpreendi o meu amigo numa dessas tarefas; confesso que não é divertido. De um massacre mais recente escaparam cerca de mil desenhos. Uma parte significativa deles encontra-se aqui. São muitos anos dedicados ao ofício, a mão cega procurando iluminar as funduras da alma, ou esforçando-se, com o tempo, a esquecer o que foi aprendendo.

Já se sabe como o desenho é fundamental na obra de qualquer pintor. Klee considerava-o a pedra de toque de toda a expressão plástica, e não ignoramos a importância que Leonardo lhe atribuía. Alguns destes desenhos são coisas acabadas, sem relação nenhuma com os quadros; outros serão estudos para futuras pinturas; outros ainda são improvisações, uma maneira de a mão tactear no escuro, ou simplesmente repousar. Desenhos à pena, a lápis, a carvão, aguarelas, pastel, técnica mista, uma ou outra aguarela. Uns feitos d’après nature, outros de imaginação. A figura humana, alguns animais, uma ou outra planta, mais raramente uma paisagem – talvez neste inventário se encontrem as suas obsessões. Mas a figura humana, muito mais no seu aspecto grotesco e infeliz do que no seu esplendor, é nos desenhos, e em toda a sua obra, predominante. Curiosamente, Resende parece contrariar a ideia de Adorno, segundo a qual às obras tardias, estaria reservado o papel de representarem as catástrofes. Ele pensa-o a propósito de Beethoven, mas poderia ter invocado a pintura de Goya, de Klee, de Miró (e acrescentando outro exemplo musical, os últimos quatro Quartetos para Cordas, de Chostakovitch, que Adorno não deve ter conhecido). Em Resende passa-se o contrário: quanto mais vai envelhecendo mais vital e solar se torna a sua arte. E ao mesmo tempo mais pueril. É então que a sua pintura deixa de falar e começa a cantar. É desse modo que se defende do peso do mundo.

 

In: À Sombra da Memória (1993)

08
Maio
11

Fidelidade em Armando Alves

Ele veio da planície, como se sabe. Veio da ondulação das searas, ininterrupta, até quando não há vento. Só muitos, muitos anos depois descobrirá dentro de si outra ondulação – a do mar, agora a dois passos de casa. Mar que nos entra pela varanda com o verão, ou podemos encontrar à porta, como se nos esperasse para uma carícia. É esta a surpresa que nos traz hoje esta pintura – o mar, o mar, o mar, de vaga em vaga. À ondulação do trigo, de que ainda há vestígios em várias telas, sucedeu a ondulação da espuma. Os ocres queimados cederam o passo aos azuis gloriosos. Os amarelos sombrios abriram-se à rebentação da cal. Espuma ou esperma, tanto faz – estas golfadas têm um destino: emprenhar a terra.

Continuo a pintar o Alentejo, diz-me ele. Mas agora um Alentejo de água, digo-lhe eu. Gosto desta fidelidade. A força de um artista vem-lhe do conhecimento dos seus limites. E os limites do homem são os da sua paixão, essa desmesura. Ser homem resolutamente, exigia Kierkegaard, o Desesperado. Não é tarefa fácil. Com júbilo no coração ou com um corpo ferido aos ombros, ser homem é difícil. Fiel à sua paixão. Resolutamente. Paixão à terra, a este horizonte raso, ondulante, entrando em espasmos sucessivos pelo corpo do mundo; indiferente a esse perverso refinamento que é apenas comprazimento na inteligência, e suas ligações aos círculos do poder, ou do mercado, de tão funestos frutos. Paixão ao corpo, à irradiação do corpo, à sensualidade magnificente do corpo, que transforma as formas da vida, mesmo as mais humildes, em apetência de luz, de mais luz ainda, última súplica do olhar.

Um dia ele conhecerá outra ondulação, a do silêncio. E será a perfeição.

In: À sombra da memória (1993)

Armando Alves, Paisagem (2009) - Óleo sobre tela (45 cm x 50 cm)

29
Jun
10

O rio

Chega ao fim, o rio. Vem de longe só para morrer às mãos das vagas. Chega extenuado, o caminho é longo, nem sempre fácil, embora se demore muita vez a contemplar as margens, ora escarpadas, ora em socalcos verdes, entre oiro e carmim. Na foz esperam-no as gaivotas, mas sobre os seus flancos, onde o céu é mais fértil, as garças cinzentas seguem-no de perto – não sei dizer qual destas aves prefere para companhia. O que ele mais ama, sobre isso não tenho dúvidas, são aqueles álamos frios das terras de Sória, onde as suas águas são delgadas e jovens. Os álamos e a música que neles há, quando os anjos lhes acariciam as folhas, que tremem à sua aproximação. É com eles na alma, que se verga por fim o rio às águas salgadas da sua última morada.

25
Mar
09

Homenagem a Raul Brandão

O Sal da Língua agradece as mais de 10000 visitas e inaugura hoje a prosa de Eugénio neste espaço de todos.

 

Almocei no Cerco do Porto e como o dia estava bonito peguei no Miguel e fomos até à Foz. O miúdo nunca andara de eléctrico, além disso eu queria mostrar-lhe a casa onde nascera Raul Brandão e a Praia dos Ingleses, antes que as ondas a levassem. O Gil deixou-nos no Infante e viria esperar-nos lá para o fim da tarde. Como se no outono o mar já não merecesse o olhar de ninguém, o eléctrico ia quase vazio. Apontei ao Miguel o casario cigano de Miragaia, os estaleiros sonolentos de Massarelos, a Cantareira reduzida a um estendal de roupa ao sol, as gaivotas do Cabedelo, tão próximas e confiantes que terminaram por entrar num poema meu.

Descemos no Passeio Alegre; ali estava ainda a loja do Augusto onde se vendia, de fabrico caseiro, a mais perfumada compota de framboesas; aqui, a rua onde crescera o Raul Brandão, a casa onde nasceu, na qual ninguém poderia já escutar o murmúrio da bica de água ou ver o pessegueiro bravo florir encostado ao muro do quintal; por estes degraus sobe-se ao adro da igreja matriz, donde já não se avista o mundo porque o mundo cresceu desmesuradamente, mas onde podem contemplar-se uns plátanos formosíssimos, agora carregados de oiro velho. Por ruas estreitas e vielas, que se encontram ainda “a cem léguas do Porto e da vida” chega-se por fim, mesmo indo devagarinho, à Confeitaria da Foz, com o Miguel a aguentar-se bem nas pernas, apesar dos seus escassos seis anos.

A confeitaria onde eu e o Pascoaes tomávamos o café, não mudara só de nome, mudara também de aspecto, embora conservasse ao fundo algumas mesas junto às vidraças, por onde entrava o mar. Depois de nos sentarmos, comecei a falar do velho poeta ao Miguel. Não me parece que ele esteja muito atento.

Ó papi, qual é o maior, o Pascoaes ou o Fernando Pessoa?

Isso é uma pergunta que tem pouco sentido, Miguel. Um poeta, quando é grande, é sempre o maior para quem faz sua a poesia dele.

Mas qual achas que é o maior?

Bem, eu gosto mais do Pessoa. Não vale a pena dizer-te porquê, não saberia dizê-lo com palavras que tu entendesses.

O empregado serviu o café, o Sumol. Observo o pequeno enchendo escrupulosamente o copo.

Ó papi, tu gostavas que eu fosse como o Fernando Pessoa?

Não, filho; o que eu gostava era que fosses feliz.

Mas é que se eu fosse como o Fernando Pessoa não era feliz.

Ah, sobre isso não tenho dúvidas; ele também não o era, nem creio que estivesse preocupado com isso.

Calou-se; mas a pausa foi breve.

Tu sabes como é que eu era feliz?

Não, não faço ideia.

Fez outra pausa, mais breve.

Era feliz, se fosse como o Gomes.

Não respondi. Foi ele que insistiu:

Sabes quem é o Gomes?

Fingi uma ignorância maior do que na realidade tinha:

Deve ser…

Tu não sabes nada, papi! É o Bota de Oiro! Sabes o que é o Bota de Oiro?

Não me deu tempo de dizer sim ou não:

É o que mete mais golos.

Está bem Miguel, vamos ver o mar; deixa lá o Gomes e o Pessoa. O que importa é que venhas a ser tu próprio, não há outra maneira de ser feliz.

Peguei-lhe na mãozita, que se abandonou, confiante. Descemos à praia, soltou-se, correu pela areia. O mar era uma porção de brilhos, habitado, como estava, somente pela luz.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Agosto 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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