Archive for the 'Matéria Solar (1980)' Category

22
Jan
11

Tu estás onde o olhar começa

Tu estás onde o olhar começa

a doer, reconheço o preguiçoso

rumor de agosto, o carmim do mar.

Fala-me das cigarras, desse estilo

de areia, os pés descalços,

o grão do ar.

In: Matéria Solar (1980)

Anúncios
17
Maio
10

Este país é um corpo exasperado

Este pais é um corpo exasperado,

a luz da névoa rente ao peito,

a febre alta à roda da cintura.

O país de que te falo é o meu,

não tenho outro onde acender o lume

ou colher contigo o roxo das manhãs.

Não tenho outro, nem isso importa,

este chega e sobra para repartir

com os corvos – somos amigos.

09
Maio
10

Setembro: que lugar

Setembro: que lugar

para dormir — ou nessas folhas

ardendo pelo chão da tarde.

Como partir, deixar deserta

a casa errante

e diminuta do olhar?

A que nos resta.

06
Jan
10

Fazer do olhar o gume certo

Fazer do olhar o gume certo,
atravessar a água corrompida,
no avesso da sombra soletrar
o rosto ardido da sede antiga.
09
Dez
09

A tarde sacudiu as suas crinas

A tarde sacudiu as suas crinas,
as crianças demoram-se nos espelhos,
um amigo começa no verão,
 no íntimo despir das suas luzes.
13
Out
09

Toar um corpo

Toar um corpo
e o ar
e a língua da neve.
 
Toar a erva
mortal e verde
de cinco noites
e ao mar.
 
Um corpo nu.
E as praias fustigadas
pelo sol e pelo olhar.
07
Set
09

Eu vi essas muralhas ruírem

Eu vi essas muralhas ruírem
sobre o rio — eram calmas as águas
de setembro, e sucessivas.
 
Despedia-me das folhas,
também eu preparava esse abandono
da cidade e das suas almas.
 
Eu vi essas muralhas.
Eram espessas broncas frias.
Ruíram, quando as olhava.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Dezembro 2017
S T Q Q S S D
« Out    
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

Blog Stats

  • 142,017 hits