Arquivo de Julho, 2011

25
Jul
11

Soberania

Voltar, recomeçar – com que palavras? Um bando de ganapos ri, canta na esquina da rua. Gostaria de pensar que eu e essas vozes que chafurdam na noite se ignoram até ao osso. Mas não é assim: a vulgaridade desses sons atravessa as paredes; são, apesar dela, uma companhia. Habito um país sem memória – alguém sabe de lugar mais triste? É o tempo do tordo branco emigrar. Voltemos pois ao princípio. E o princípio são meia dúzia de palavras e uma paixão pelas coisas limpas da terra, inexoravelmente soberanas. Essas, onde a luz se refugia, melindrosa. Só elas abrem as portas aos sortilégios, e os sortilégios são diurnos, mesmo quando invocam a noite, e as águas do silêncio, e o indelével tempo sem tempo.

3.2.86

 

In: Vertentes do Olhar (1987)

18
Jul
11

Herança

É a minha herança: o sorriso,

o azul de uma pedra branca.

Posso juntar-lhe, ao acaso da memória,

um ramo de madressilva inclinado

para as abelhas que metodicamente fazem

do outono o lugar preferido do verão,

um melro que deixou o jardim público

para fazer ninho num poema meu,

um barco chamado Cavalinho na Chuva

à espera de reparação no molhe da Foz.

Deve haver mais alguma coisa,

não serei tão pobre, cometemos sempre

a injustiça de não referir, por pudor,

coisas mais íntimas: um verso de Safo

traduzido por Quasimodo, a mão

que por instantes nos pousou no joelho

e logo voou para muito longe,

as cadências do coração

teimoso em repetir que não envelheceu.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

14
Jul
11

Cacela

Está desse lado do verão

onde manhã cedo

passam barcos, cercada pela cal.

 

Das dunas desertas tem a perfeição,

dos pombos o rumor,

da luz a difícil transparência

e o rigor.

 

In: Escrita da Terra (1974)

13
Jul
11

O Sal da Língua sugere… Poesia nas ruas de Cacela

O Sal da Língua sugere uma visita, no próximo fim-de-semana, à aldeia algarvia de Cacela Velha, onde decorrerá mais uma edição de “Poesia na Rua”, um evento cultural preenchido pela palavra poética. Leituras, conversas, apresentações de livros, ilustração de poemas e concertos são algumas das actividades previstas para o evento que decorre nos dias 15 e 16 de Julho.

Eugénio de Andrade é um dos poetas que verteu a aldeia de Cacela na forma de um poema, porém outros poetas também sobre ela escreveram ou nela viveram. É o caso de Sophia de Mello Breyner, Abû al-‘Abdarî, Teresa Rita Lopes, Adolfo C. Gago.

Uma boa proposta para mais um fim-de-semana que se aproxima. O Programa detalhado, retirado do Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela, é o seguinte:

Dia 15 de Julho

A partir das 10h00

Actividades infantis e jogos poético – populares; Leituras de histórias e poemas com Filipa Melo, Paulo Moreiras e Teresa Patrício

17h00

Apresentação da Antologia Poética de Adolfo C. Gago por Teresa Patrício

18h00

Histórias sobre poemas com Teresa Rita Lopes

19h00

Os media do lado de dentro e do lado de fora dos livros

À conversa com Carlos Vaz Marques, João Pombeiro, Filipa Melo e Mário Antunes

22h00

Projecção da curta-metragem FRAGMENTAÇÃO (7’05”, 2011, Portugal) de Nuno Fernandes, baseado no poema ‘A Gaveta da Pedra’ de Rogério Cão. Com a presença do realizador e do actor/poeta

22h30

Concerto com Guta Naki

Dia 16 Julho

A partir das 10h00

Actividades infantis e jogos poético – populares; Leituras de histórias e poemas com Filipa Melo e Paulo Moreiras

10h30

Vamos ilustrar poemas sobre Cacela – Oficina de aguarela para pais e filhos com o artista plástico Francisco Pinheiro

16h00

Poetas do Guadiana – Duas Margens: um projecto em construção

16h45

O universo berbere na Literatura.

Apresentação dos livros “Debajo de tu língua” e “Huria – mar memória”, com presença dos autores Pepa Giráldez Tinoco (Chia) e Mohamed Hammu e dos editores Fernando Esteves Pinto e Tiago Néné / Editora Livros do Mundo

17h30

Poetas do al-Andalus com Ahmed Tahiri e António Baeta e poesia andalusi no feminino com Fatima-Zahra Aitoutouhen

18h15

“Ele dizia que a poesia era apenas o pretexto” – À conversa com Paulo Moreiras, José Riço Direitinho, Margarida Ferra e Eladio Horta

19h15

Homenagem a Hermínio Manuel Monteiro com Lúcia Pinho e Melo, João Paulo Fragoso de Almeida e José Carlos Barros

Ao anoitecer – A poesia desce dos telhados (poesia e música) com dizedores e In Tento

22h00

Festa da Poesia

Poemas ao Ritual da Igrejinha com a Banda Filarmónica de Vila Real de Santo António

Leitura de poemas com Margarida Ferra, Paulo Moreiras, António Baeta, Teresa Rita Lopes, Rogério Cão, Fernando Esteves Pinto, Miguel Godinho, Tiago Néné, Pepa Giráldez Tinoco (Chia), José Estêvão Cruz, Manuel Gomes, José Carlos Barros, M. Gilberta Fernanda, Rosália Madeira, Eliseu Miguel, António Domingos Mestre e Eladio Horta.

23h00

Concerto com NOISERV

Poesia na Rua 2011

08
Jul
11

O lugar dos amigos – José Manuel dos Santos

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.


“Eugénio”

José Manuel dos Santos, publicado a 18 de Junho de 2007.


Aquela tarde era eu a recebê-la no rosto, a olhar o clamor da claridade, a temer que ela se desfizesse em noite. Cheguei, toquei à campainha, a porta abriu-se, subi os degraus da escada. Esperava-me naquela encenação do silêncio, na sala larga de livros e de luz. Olhei-o e ele olhou-me com os olhos duros de atenção. Os gestos eram-lhe rituais. Sentou-se e convidou-me a sentar naqueles sofás muito feios. Na parede, um quadro de Júlio Resende, dos melhores tempos, testemunhava a amizade e as suas dádivas. Olhámos pela janela o encontro do rio com o mar. Falámos do tempo, do azul, da luz serena, que torna o Porto outra cidade, e ele disse-me que isso lhe bastava para ser feliz. Usava as palavras como se as cercasse, as puxasse para o Mundo, as tornasse matéria-prima da sua voz, dando-lhe um alcance físico que as ecoava, as prolongava, as estirava. Um CD sobre a mesa levou-nos a falar da soberania da música sobre a sua vida nua. Nesses dias, ele ouvia, repetidamente, a Sonata Nº 29, Opus 106, de Beethoven, chamada Hammerklavier. Com mãos meticulosas, que desenhavam o ar, falou da arquitectura daqueles sons, da sucessão dos andamentos. Depois, a conversa tornou-se pergunta. Interrogou-me sobre este e sobre aquele. Eu respondia, ele olhava a resposta como se fosse escrita. E falámos de poesia. E de poetas. E de poemas.


De repente, a voz que eu ouvia soou exasperada e alta como o mar de Dezembro. Gritava a sua alergia aos “poetas caraveleiros, os que, mesmo dizendo-se de esquerda, fizeram de Camões o poeta oficial que Salazar quis que fosse”. Acusava, citava nomes como se os citasse num tribunal eterno. “Na minha poesia não há uma única caravela”, exclamava. Lentamente, o vento do seu ataque mudou de direcção e lamentou os caminhos em que a nova poesia andava: “Esse barroco surrealizante, tão gasto, tão desinteressante, dos maus discípulos de Herberto Helder, ele, sim, um grande poeta…” Para o acalmar, enquanto o chá descia nas chávenas, falei de Pessanha, de Pessoa, de Pero Meogo. Abriu a admiração e o rosto. Contou uma história passada com o Botto. Falou da irmã de Lorca. E de Yourcenar, que tinha conhecido em 1960, num Porto ido, onde conversaram sobre o Rei D. Pedro e os seus amores, não apenas por Inês de Castro mas também por um escudeiro. Falámos da vida e da paixão e do desejo e da morte. Esse era um tema que agora se tinha colado à sua boca, como se de uma outra boca se tratasse.


Eugénio de Andrade morreu há dois anos. A Fundação que tem o seu nome e onde encontrou a última residência na Terra está ameaçada de abandono: transformou-se na “haste mais alta da melancolia”. Aquela casa que era, para ele, símbolo de glória e de imortalidade é hoje sinal de esquecimento e de morte. Olhei-a há dias e o abutre da tristeza fez de mim a sua presa. Lembrei-me das tardes ali passadas, como esta que conto – a última. Recordei as horas, mais alegres e mais perversas, em que estive no estreito andar da Rua Duque de Palmela. Mas a sua única, a sua verdadeira casa era, é a sua obra. Só ela lhe foi consolação, fuga e abrigo do frio do Mundo.

06
Jul
11

As nascentes da ternura

1

No espaço de um relâmpago

os olhos reflectem os navios.

 

2

O silêncio brilha acariciado.

 

3

O silêncio é de todos os rumores

o mais próximo da nascente.

 

4

Só água era, e sem memória.

 

5

Claridade sem repouso, ó claridade,

aguda nos juncos, nas pedras rasa.

 

6

É no ardor dos cardos

que o vento faz a casa.

 

7

Da pedra à cal, do sal à espuma,

amo a pobreza e a brancura.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

04
Jul
11

Variação sobre um tema antigo

Vem de tão longe que tenho piedade

dos seus cães: abro a porta, aceito

a festa dos animais.

Aproximou as mãos do fogo

e encontrou a flauta, levou-a

à boca: então o silêncio brilhou

acariciado.

 

In: Rente ao Dizer (1992)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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