Arquivo de Abril, 2012

28
Abr
12

Memória dos Dias

Vais e vens na memória dos dias

onde o amor

cercou a casa de luz matutina.

Às vezes sabíamos de ti pelo aroma

das glicínias escorrendo no muro,

outras pelo rumor do verão rente

ao oiro velho dos plátanos.

Vais e vens. E quando regressas

é o teu cão o primeiro a sabê-lo.

Ao ouvi-lo latir, sabíamos que contigo

também o amor chegara a casa.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

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21
Abr
12

Elegia e destruição

Desse tempo em que se permanece criança

durante milhares de anos,

trouxe comigo um cheiro a resina;

trouxe também os juncos vermelhos

que ladeiam a orla do silêncio,

neste quarto, agora habitado pelo vento;

trouxe ainda um olhar húmido

onde os pássaros perpetuam o céu.

 

Dificilmente esqueço a rua onde encontrei

os teus olhos imensos, fascinados

pelo fulgor secreto das espadas,

a casa onde te contei, de mãos trémulas,

a parábola do pão e do vinho,

dando a cada palavra um rosto novo.

 

A cidade onde te amei foi decepada

e não posso abolir as sentinelas do medo.

Mas também não posso deixar de te querer

com beijos e relâmpagos,

com sonhos que tropeçam nas paredes

e se alimentam de terror e de alegria,

enquanto o tempo persiste em soluçar.

 

Que me quereis verdes sombras da lua

na minha cama onde adormece o frio?

Aqui estou, mais alto do que o trigo,

sangrando nas pétalas do dia

e sem receio de que aos nossos gritos

ainda chamem brisa.

 

In: As Palavras Interditas (1951)

16
Abr
12

Paisagem

A névoa que desde manhã fechava

as portas todas ao rio foi-se embora.

A luz é fria: esta é agora

a minha terra, o outono.

Todas as terras são afinal as mesmas

folhas cobrindo a relva, às vezes

cintilando quando o sol rasga a névoa.

 

In:  Pequeno Formato (1997)

09
Abr
12

Infância

Saio de casa para ver os estorninhos; não têm conta a esta hora da tarde, em revoadas sucessivas sobre as árvores. Quando a noite cai já estou de volta, o olhar atravessado por rápidos fulgores. A luz é tudo o que trago comigo, porque também eu tenho do escuro.

25.4.85

 

In: Vertentes do Olhar (1987)

07
Abr
12

O Sal da Língua sugere…sempre Poesia e por isso Florbela

O Sal da Língua sugere uma ida ao cinema para ver o filme Florbela, que já está nas salas um pouco por todo o país e que retrata uma das fases da vida da poetisa Florbela Espanca, um dos nomes incontornáveis da poesia portuguesa do século XX. A actriz Dalila Carmo entrega-se de corpo e alma para nos dar um retrato conseguido de uma época, de um enquadramento político e social, mas sobretudo de uma mulher – Florbela – desajustada perante as várias realidades de que fazia parte – o casamento, o amor às pessoas que a rodeavam, a família, o Alentejo, Portugal. O filme tem algumas fraquezas mas é uma homenagem à vida de Florbela e através da sua vida, mostrada no ecrã, somos conduzidos inevitavelmente ao mais fundo da sua poesia.

 

“Eu sou a que no mundo anda perdida

Eu sou a que na vida não tem norte

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada… a dolorida…

 

Sombra de névoa ténue e esvaecida,

E que o destino, amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!

 

Sou aquela que passa e ninguém vê

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…

 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou…

Alguém que veio ao mundo pra me ver

E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

 

06
Abr
12

Porto

O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito  que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar. O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lárimas todas das crianças de S. Vítor correndo nos sulcos da sua melancolia. O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me assim cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida. Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal.


In: A Cidade de Garrett (1993)

02
Abr
12

O lugar dos amigos – Jorge Pinheiro

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

(texto de Jorge Pinheiro publicado na revista de poesia “Relâmpago”, n.º 15, Outubro de 2004, dedicado a Eugénio de Andrade)

O meu relacionamento com Eugénio de Andrade tem dois tempos completamente distintos: o primeiro, nos anos 60, quando, após o almoço, o grupo que gravitava em torno de Belas-Artes se reunia no Café de São Lázaro. Aí, a nossa troca de ideias não ultrapassava o que a cada um cabia na rodada de argumentos que circulavam em torno da mesa. Para além deste ritual do café, só acidentalmente nos encontrávamos em casa de algum amigo comum, e as conversas arrastavam-se na modorra emoliente, como é frequente nos serões rotineiros.

Entretanto, em 1976, transferi-me de Belas-Artes do Porto para Lisboa e a parte da semana em que estava no Porto deixava-me pouco tempo livre; acabou, assim, a tertúlia no Café São Lázaro, restando-nos, mas cada vez mais raros, os tais serões.

O segundo tempo deve-se a um amigo de ambos, o incansável José Cruz Santos – editor de sempre da obra de Eugénio de Andrade, seu devotado admirador e amigo – que, sabendo-me, também eu, sensível à sua poesia, me desafiou a “fazermos qualquer coisa” de parceria com o Eugénio.

A ideia foi germinando até se concretizar: seria um álbum, teria 15 poemas e outros tantos desenhos. Uma vez assente este ponto de partida, logo que nos foi possível reunimo-nos os três, a meu pedido, na sua casa da Foz.

Confesso que o meu propósito neste encontro, tão formalmente combinado, não era tanto afinar agulhas em relação ao álbum mas, principalmente, perscrutar algo vindo do próprio autor, cuja poesia eu conhecia bem. Porém, sempre me recusei a aceitá-la apenas espartilhada no estereótipo do “Poeta do sol, da cal, do corpo apolíneo, da linguagem simples”, etc., etc. Não sei se a obra do artista é apenas o resultado da reflexão do seu fruidor, mas, seja como for, decididamente, não era por este caminho que eu queria seguir para chegar aos desenhos, porque a tão apregoada simplicidade de linguagem dos seus poemas recorda-me, frequentemente, a aparente simplicidade

musical dos “Lieder” de Schubert, tão facilmente trauteáveis, mas onde se esconde, igualmente, uma sublinear e enorme complexidade.

Em suma, não pretendendo nenhum de nós a ilustração do que quer que fosse, mas, talvez, a construção de um discurso tão paralelo quanto possível à substância do conteúdo da poesia do autor, atrevi-me, em dada altura da conversa, a perguntar-lhe quais eram os seus “fantasmas”. Respondeu-me assim: “São o pastor, a criança e a mulher de negro.” Referia-se, obviamente, às camponesas da sua terra.

Perdoe-se-me a expressão: “fui buscar lã e voltei tosquiado”! Cada autor só sabe fazer, honestamente, aquilo de que tem necessidade e eu não estava, naquele período, necessitado de nenhum destes “fantasmas”.

Encurtando razões: não consegui, com grande mágoa minha e depois de imensas tentativas ao longo de meses, fazer um único desenho para o álbum. Acabei por fazer um retrato, embora não seja uma forma de expressão que tenha por hábito cultivar, mas como o Eugénio de Andrade tem uma “máscara” muito marcada… saiu. Enviei-lho acompanhado de uma carta onde tentei explicar-lhe as razões do meu insucesso em relação ao álbum.

Entretanto, no Natal, pediu-me que lhe desenhasse, para um cartão de cumprimentos aos amigos, um pássaro. Enviei-lhe um aviário com “croquis” de pássaros.

E passaram muitos meses.

Certo dia, quando regressei a casa, disseram-me que tinha telefonado, desejava falar comigo e estava muito doente! Infelizmente, eu já tinha conhecimento do seu estado de saúde. Telefonei-lhe de imediato porque o sabia já em casa e, então, tive o imenso privilégio de ouvir o Eugénio de Andrade, com uma voz absolutamente firme, ler-me, com a sua proverbial qualidade de leitura, aquele que, se não erro, terá sido, até hoje, o seu último poema:

“Também ele vai morrer, o verão.

Do verde ao vermelho

as maçãs ardem sobre a mesa.

Ardem de uma luz sua, mais madura.

E servem-me de espelho”

Ao longo da leitura, o desenho que me pedia agora, para o Natal, o Natal que só viria passado quase meio ano, ia-se-me construindo nos olhos.

A referência à morte, expressa no poema, em nada alterava, a meu ver, a imagem revivificadora da dinâmica de complementaridade cromática da alacridade do vermelho e do verde das maçãs, (que, afinal, lhe serviam de espelho).

“Tinha”, julgava eu, o desenho para o cartão!

Porém, no fim da leitura do poema, fez uma pausa longa e, num tom de voz baixo e pausado, ditou-me:

Hospital de Santo António, 21 de Julho de 2002.

Desabou-se-me o mundo!

Obviamente, eu sabia do seu internamento no Hospital de Santo António, da sua falta de saúde e, portanto, não era esse facto que iria condicionar, novamente, a minha capacidade de, a seu pedido, fazer um desenho.

Se da primeira vez os seus “fantasmas” não eram, naquele período da minha vida, suficientemente estimulantes para eu criar algo, agora, e subitamente, a conotação que teve – e sempre terá – a palavra “hospital” estilhaçou, em segundos, a imagem que se me foi construindo ao longo da leitura.

Tudo isto parece ridículo, mas a verdade é que, não sendo eu suficientemente pós-moderno para trabalhar à base de estratégias, mas, talvez romanticamente, apenas motivado por “necessidades interiores”, suei as estopinhas para conseguir acabar por fazer um simples e modestíssimo desenho para um cartão de cumprimentos, porque o desenho, a meu ver, contrariava o poema naquilo que eu lia como essencial.

Quando o enviei, coloquei-lhe o meu ponto de vista, abertamente. Não sei se pela gentileza que sempre tem tido para comigo, mandou imprimir o desenho e disse-me achar tudo bem.

Recentemente, porém, de novo José Cruz Santos decidiu oferecer “Uma prenda para Eugénio com algumas tulipas”, com a colaboração de muita gente das letras e das artes plásticas. Quando tive que escolher o poema que acompanharia mais este desenho, não hesitei um segundo: seria o “Poema à mãe” e, ao construir a imagem, julgo ter finalmente compreendido, pelo menos, um dos seus tais “fantasmas”: o fantasma primordial que me faz ler, sublinearmente, a nostalgia schubertiana?

Ainda não voltei a vê-lo.

Mas a sua poesia está sempre na minha companhia.

6 de Setembro de 2004




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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