Posts Tagged ‘Verão

15
Jun
14

Disssonâncias

Pedra a pedra

a casa vai regressar.

Já nos ombros sinto o ardor

da sua navegação.

 

Vai regressar

o silêncio com as harpas.

As harpas com as abelhas.

 

No verão morre-se

tão devagar à sombra dos ulmeiros!

 

Direi então:

Um amigo

é o lugar da terra

onde as maçãs brancas são mais doces.

 

Ou talvez diga:

O outono amadurece nos espelhos.

Já nos meus ombros sinto

A sua respiração.

Não há regresso: tudo é labirinto.

 

In: Obscuro Domínio (1972)

12
Jun
13

Labirinto ou Alguns Lugares do Amor

O outono
por assim dizer
pois era verão
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo


e é branco.

In: Véspera de Água (1973)

25
Jul
12

Plenamente

A boca,

 

onde o fogo

de um verão

muito antigo

 

cintila,

 

a boca espera

 

(que pode uma boca

esperar

senão outra boca?)

 

esperar o ardor

do vento

para ser ave,

 

e cantar.


In: Obscuro Domínio (1972)

28
Abr
12

Memória dos Dias

Vais e vens na memória dos dias

onde o amor

cercou a casa de luz matutina.

Às vezes sabíamos de ti pelo aroma

das glicínias escorrendo no muro,

outras pelo rumor do verão rente

ao oiro velho dos plátanos.

Vais e vens. E quando regressas

é o teu cão o primeiro a sabê-lo.

Ao ouvi-lo latir, sabíamos que contigo

também o amor chegara a casa.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

13
Mar
12

Matinalmente

Com a luz, com a cal

do verão entornada pela casa,

com essa música

tão amada e bárbara,

com a púrpura correndo

de colina em colina,

fazer uma coroa –

e de lágrimas cheia a taça

sagrar-te príncipe da vida.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

20
Fev
12

Sobre as sílabas

O assédio do verão, as rolas

dos pinheiros, a risca de sal

das areias; às vezes

chovia – então um barco

de borco era o abrigo,

era o amigo; a chuva abria

o aroma dos fenos, não tardava

o sol em cada sílaba.

 

In: Rente ao Dizer (1992)

01
Jan
12

O verão é assim

O verão é assim: a masculina e mineral

e quase táctil vibração das cigarras.

Não sou apenas eu, também elas

se alimentam de claridade,

fogem do escuro.

Porque o escuro é onde se abrigam

a calúnia e a usura,

o escuro é onde a vaidade

e a demência do lucro acorrem

ao apelo do mais rasteiro.

O Céu não passa de um imenso

e vazio buraco negro,

mas tenho a esperança que o Inferno

conserve ainda activas as fogueiras

da inquisição, e nas suas chamas

possam ouvir-se um dia

esses cães, que tanto abusam do poder,

rechinar – como as cigarras no verão.


In: Sal da Língua (1995)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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