Posts Tagged ‘cal

13
Mar
12

Matinalmente

Com a luz, com a cal

do verão entornada pela casa,

com essa música

tão amada e bárbara,

com a púrpura correndo

de colina em colina,

fazer uma coroa –

e de lágrimas cheia a taça

sagrar-te príncipe da vida.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

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11
Out
11

Outros ritmos, outros modos

Não é o mar, não é o vento, é o sol

que me dói da cintura aos sapatos.

Sol de fins de Julho,

ou de Agosto a prumo: finas

agulhas de aço.

É o sol destes dias, aceso

na folhagem.

Bebendo a minha água.

Colado à minha pele.

É doutro território, doutro areal.

Tem outros ritmos, outros modos,

outros vagares para roer

a cal, morder-me os olhos.

Até quando cega canta ao arder.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

14
Jul
11

Cacela

Está desse lado do verão

onde manhã cedo

passam barcos, cercada pela cal.

 

Das dunas desertas tem a perfeição,

dos pombos o rumor,

da luz a difícil transparência

e o rigor.

 

In: Escrita da Terra (1974)

05
Jan
11

Em louvor do fogo

Um dia chega

de extrema doçura:

tudo arde

Arde a luz

nos vidros da ternura.

As aves

no branco

labirinto da cal.

As palavras ardem,

a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa

à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

na extrema e lenta

doçura da tarde.

In: Obscuro Domínio (1972)

31
Jul
10

Arquitectura açoriana

Onde os olhos tocam a cal e a escura

pedra de basalto, é a perfeição:

a tão nobre e concreta arte do espaço

— casa, praça, palácio, rua,

convento, fortaleza, igreja,

com adros, portais, degraus,

rendas e rendas nas fachadas,

com janelas para o mar e varandas

para as aves —, arquitectura lavada,

onde a veemência da luz

concilia a terra imóvel

com a brusca paixão dos mastros.

Quando não é verde, a luz

destas ilhas é rosada.

20-7-92

O Sal da Língua embarca rumo às ilhas verdes e regressará  no fim do mês.

Entretanto, boas leituras e boas férias para todos.

25
Jul
10

Nas palavras

Respiro a terra nas palavras,

no dorso das palavras

respiro

a pedra fresca da cal;

respiro um veio de água

que se perde

entre as espáduas

ou as nádegas;

respiro um sol recente

e raso

nas palavras,

com lentidão de animal.

01
Mar
10

A teia

As cigarras,

a brusca rouquidão da cal,

a surda rebentação dos cardos,

tudo o que faz o verão subir a prumo

chegou ao fim.

O frio, a sua teia branca,

lembra-te, não tardará.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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