Posts Tagged ‘mar

24
Ago
14

Tarde ferida

Que mar a pique

ou luz,

ausente e quente,

na boca tão intensa

que fere a tarde?

 

In: Coração do dia (1958)

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19
Nov
12

Casualmente

Vinha do mar, a sua boca ardia;

só casualmente passou por aqui:

como o tordo branco, ou a cotovia.


In: O Outro Nome da Terra (1988)

//

27
Maio
12

Narração inexacta da casa

A mais antiga e demorada

frase fala do mar logo de início,

no desejo de habitar

os flancos lentos da sua ondulação.

A narrativa torna-se depois

confusa: entre mastros e muros,

além do vento, corria o medo.

Que estranho amor levou

a fazer da casa um barco?

A cal e a pedra guardam o segredo.


In: Ofício da Paciência (1994)

 

O Sal da Língua, Eugénio e a Poesia agradecem as mais de 60 000 visitas ao longo destes quatro anos a este blogue.

26
Jan
12

Casa de Álvaro Siza na Boa Nova

A musical ordem do espaço,
a manifesta verdade da pedra,
a concreta beleza
do chão subindo os últimos degraus,
a luminosa contenção da cal,
o muro compacto
e certo
contra toda a ostentação,
a refreada
e contínua e serena linha
abraçando o ritmo do ar,
a branca arquitectura
nua
até aos ossos.
Por onde entrava o mar.

11-5-92


In: Homenagens e outros Epitáfios (1974)

22
Jan
11

Tu estás onde o olhar começa

Tu estás onde o olhar começa

a doer, reconheço o preguiçoso

rumor de agosto, o carmim do mar.

Fala-me das cigarras, desse estilo

de areia, os pés descalços,

o grão do ar.

In: Matéria Solar (1980)

06
Out
10

Sobre o mar

Sobre o mar

a mão escreve. Como se escrever

servisse para diminuir o erro.

Escreve

num país atravessado a prumo

pelo delírio.

País despossuído. O voo rasteiro

e curto. De muro em muro.

 

In: Pequeno Formato (1997)

10
Maio
10

Outro poema para o meu amor doente

Outono, pássaro da melancolia

num céu sem cor que não promete nada,

mar de insónia onde o teu corpo paira

ou um aroma de terra molhada.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Outubro 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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