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17
Abr
11

Agora regresso à tua claridade

Agora regresso à tua claridade.

Reconheço o teu corpo, arquitectura

de terra ardente e lua inviolada,

flutuando sem limite na espessura

da noite cheirando a madrugada.

 

Acordaste na aurora, a boca rumorosa

dum desejo confuso de açucenas;

rosa aberta na brisa ou nas areias,

alta e branca, branca apenas,

e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

 

Estás de pé na orla dos meus versos

ainda quente dos beijos que te dei;

tão jovem, e mais que jovem, sem mágoa

– como no tempo em que tinha medo

que tropeçasses numa gota de água.

In: As palavras interditas (1951)

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08
Mar
10

Abril

Brinca a manhã feliz e descuidada,

como só a manhã pode brincar,

nas curvas longas desta estrada

onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais

coroado de rosas e de cio,

e num salto brusco, sem deixar sinais,

rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,

carregados de espanto e de alegria,

e atira pedras às curvas mais distantes

 – onde a voz dos ciganos se perdia.

31
Jan
09

Poema à mãe

No mais fundo de ti

eu sei que te traí, mãe.

 

Tudo porque já não sou

o menino adormecido

no fundo dos teus olhos.

 

Tudo porque ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais.

 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.

 

Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura.

 

Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos.

 

Mas tu esqueceste muita coisa;

esqueceste que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu,

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!

 

Olha – queres ouvir-me? –

Às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos;

 

ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura;

 

Ainda oiço a tua voz:

era uma vez uma princesa

no meio do laranjal…

 

Mas – tu sabes – a noite é enorme,

e todo o meu corpo cresceu.

Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber.

 

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

 

21
Jan
09

Quase madrigal

Os anjos que prometes são apenas

o rosto triste dos dias desolados.

Eu não prometo nada, sou alegria.

Aceito os anjos nos beijos que me dás,

pondo rosas nos teus dedos descuidados.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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