Arquivo de Fevereiro, 2008

28
Fev
08

Claro que os desejas, esses corpos

Claro que os desejas, esses corpos

onde o tempo não enterrou ainda

os cornos fundo — não é o desejo

o amigo mais íntimo do sol?

Que os desejas, como se cada um

deles fosse o último, último corpo

que o teu corpo tivesse para amar.

25
Fev
08

Apenas um rumor

E no teu rosto aberto sobre o mar

cada palavra era apenas o rumor

de um bando de gaivotas a passar.

22
Fev
08

Cavalos

Uma canção de cavalos

me pede o Miguel que escreva:

cavalos de sol sedentos,

mansos cavalos de seda.

Cavalos bebendo a sombra

verde e rosa das palmeiras

ou bailando nas areias

com as luzes derradeiras.

Cavalos de romanceiro

disparados como setas

em terras da minha terra

ou só na minha cabeça.

Cavalos de sol sedentos,

mansos cavalos de seda:

uma canção de cavalos

me pede o Miguel que escreva.

21
Fev
08

Véspera do sol

Com o sol a trepar pelas árvores

não tardará

que a manhã corra mais limpa

e se possa beber.

19
Fev
08

Sobre os cisnes selvagens de Yeats

Agora anoitece tão cedo – tenho

medo de te perder no escuro.

Lembro-me dos cisnes selvagens

que do lago se erguiam soberanos

iluminando as águas e o céu

do Outono ao fim da tarde.

Também eles se perdem

agora na inclinação da sombra.

Que país será o meu? Este,

onde vivo e sou estrangeiro?

O da luz atravessada

pelos cisnes? Sem ti, como saber?

18
Fev
08

Concentro os olhos no mais precário

Concentro os olhos no mais precário

lugar do teu corpo: morre-se

em Agosto com as aves: 

de solidão.

 

Neste instante sou imortal:

tenho os teus braços em redor

do corpo todo:

as areias escaldam: é meio-dia.

 

Do teu peito avista-se o mar

caindo a prumo:

morre-se em Agosto na tua boca:

com as aves.

 

16
Fev
08

Os amigos

Os amigos amei

despido de ternura

fatigada;

uns iam, outros vinham;

a nenhum perguntava

porque partia,

porque ficava;

era pouco o que tinha,

pouco o que dava,

mas também só queria

partilhar

a sede da alegria –

por mais amarga.

12
Fev
08

Frente a frente

Nada podeis contra o amor.

Contra a cor da folhagem,

contra a carícia da espuma,

contra a luz, nada podeis.

 

Podeis dar-nos a morte,

a mais vil, isso podeis

 – e é tão pouco.

11
Fev
08

Sobre as gaivotas

Ao Inverno chega-se pela ausência das gaivotas

nos lábios ou nas dunas:

não há outra estrada.

 

Isto sei,

ou como o sangue é branco sobre a erva:

mas não sei mais nada.

09
Fev
08

Que diremos ainda?

Vê como de súbito o céu se fecha

sobre dunas e barcos,

e cada um de nós se volta a fixa

os olhos um no outro,

e como deles devagar escorre

a última luz sobre as areias.

 

Que diremos ainda? Serão palavras,

isto que aflora aos lábios?

Palavras, este rumor tão leve

que ouvimos o dia desprender-se?

Palavras, ou luz ainda?

 

Palavras, não. Quem as sabia?

Foi apenas lembrança de outra luz.

Nem luz seria, apenas outro olhar.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Fevereiro 2008
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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