Posts Tagged ‘Lisboa

16
Maio
09

Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.
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20
Abr
09

Aos jacarandás de Lisboa

São eles que anunciam o verão.

Não sei doutra glória, doutro

paraíso: à sua entrada os jacarandás

estão em flor, um de cada lado.

E um sorriso, tranquila morada,

à minha espera.

O espaço a toda a roda

multiplica os seus espelhos, abre

varandas para o mar.

É como nos sonhos mais pueris:

posso voar quase rente

às nuvens altas – irmão dos pássaros –,

perder-me no ar.

31
Out
08

Em Lisboa com Cesário Verde

Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que um gato persa;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também;

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante

de passos ou aves, nem eu já sei bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

Versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

de um verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio, e a música,

sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar sílaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da língua.

 

Sobre Cesário Verde…

 

Cesário Verde (1855-1886), poeta de referência da segunda metade do séc. XIX, natural de Lisboa, cidade onde inicia a formação superior no Curso de Letras da Universidade de Lisboa. Aí conhece o escritor Silva Pinto, um amigo para a vida. Interrompe o curso para trabalhar para a loja de ferragens que seu pai tinha na Rua dos Bacalhoeiros. Começa a publicar poesias a partir de 1873 no Diário de Notícias, no Diário da Tarde, no Ocidente, entre outros. Embora vivendo e trabalhando em Lisboa, vive, a espaços, o ambiente rural de uma quinta familiar em Linda-a-Pastora. Dessas vivências resulta o profundo conhecimento da dictomia campo-cidade, patente numa poesia repleta de motivos populares e na utilização verbal dos objectos mais triviais. Em 1881 Cesário participa no “Grupo do Leão” e convive com Abel Botelho, Alberto de Oliveira, Fialho de Almeida, Gualdino Gomes e com os pintores José Malhoa, Silva Porto, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. A partir de 1885 o seu estado de saúde agrava-se, vindo mesmo a falecer um ano mais tarde, tuberculoso. Em 1887 o seu amigo Silva Pinto publica uma compliação dos seus poemas em “O Livro de Cesário Verde”, uma obra incontornável de um dos incontornáveis da produção literária portuguesa.

 (Fontes: vidaslusofonas.pt/ astormentas.com/ alfarrabio.di.uminho.pt/ wikipédia)

06
Out
08

Lisboa

Alguém diz com lentidão:

«Lisboa, sabes…»

Eu sei. É uma rapariga

descalça e leve,

um vento súbito e claro

nos cabelos,            

algumas rugas finas

a espreitar-me os olhos,

a solidão aberta

nos lábios e nos dedos,

descendo degraus

e degraus

e degraus até ao rio.

 

Eu sei. E tu, sabias?

07
Jan
08

Os Jacarandás

Em meados de Junho os jacarandás de Lisboa estão em flor, a sua luz fende a pupila, acaricia o dorso da sombra. É então que – sei lá se pela última vez – a inocência volta a entrar na minha vida. Olhos, mãos, alma, tudo é novo – recomeço a prodigalizar alegria, uma alegria que não procura palavras porque o seu reino não é o da expressão. Digamos que esta nova experiência, a que não quero dar nome, não se preocupa em interrogar, talvez por já não ser tempo de dúvidas, ou então por não lhe dizerem respeito essas verdades últimas, cegas como facas.           

Não é um poema de obediência o que me proponho nestas linhas; trata-se de outra coisa: levar à boca fresca do ar o ardor das areias queimadas. Mas sem palavras, sem palavras.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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