Archive for the 'O Peso da Sombra (1982)' Category

12
Ago
13

Deixo ao Miguel as coisas da manhã

Deixo ao Miguel as coisas da manhã –

a luz (se não estiver já corrompida)

a caminho do sul,

o chão limpo das dunas desertas,

um verso onde os seixos são

de porcelana,

o ardor quase animal

de uma romã aberta.


In: O Peso da Sombra (1982)

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06
Jun
12

O corpo vai-se esquecendo de ter razão

O corpo vai-se esquecendo de ter razão:

Deixa-te estar assim contra a vidraça,

pelos ombros caída

até ao chão a fatigada luz da sombra,

na mão o ínfimo azul de um lenço

de água. Ou menos ainda.

 

In: O Peso da Sombra (1982)

09
Nov
11

Essa mulher, a doce melancolia

Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.

 

In: O Peso da Sombra (1982)

26
Out
11

Com o tempo aproximar-se-ão os rios

Com o tempo aproximar-se-ão os rios

e os montes, com o tempo

acabará por te vir comer à mão

e fazer ninho na tua cama

o silêncio


 

In: O Peso da Sombra (1982)

18
Fev
11

Sou fiel ao ardor

Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos,
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

In: O Peso da Sombra (1982)

28
Out
10

Estou sentado nos primeiros anos da minha vida

Estou sentado nos primeiros anos da minha vida
o verão já começou, e a porosa
sombra das oliveiras abre-se à nudez
do olhar. Lá para o fim da tarde
a poeira do rebanho não deixará
romper a lua. Quanto ao pastor,
talvez um dia suba com ele às colinas,
e se aviste o mar.

In: O Peso da Sombra (1982)

14
Maio
10

É um dos teus mais bonitos sorrisos

É um dos teus mais bonitos sorrisos

este Inverno

entornado nas areias.

Entrou pela varanda

com a espuma das vozes infantis.

E com os gatos dos telhados

não tardará a partir.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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