Archive for the 'Ostinato Rigore (1964)' Category

21
Maio
15

Escrita da terra

1.

Sê tu a palavra,

branca rosa brava.

2.

Só o desejo é matinal.

Poupar o coração

é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.

Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.

Beber-te a sede e partir

– eu, que sou de tão longe.

Da chama à espada

o caminho é solitário.

7.

Que me quereis,

se me não dais

o que é tão meu?

In: Ostinato Rigore (1964)

15
Set
12

Exorcismo

O rosto,

o rosto do verão,

a púrpura do fogo,

a aliança, a confiança,

minha guitarra, meu cão de cego –

 

a carícia não encontra a mão,

 

lembra-te.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

29
Fev
12

Nocturno da água

Pergunto se não morre esta secreta

música de tanto olhar a água,

pergunto se não arde

de alegria ou mágoa

este florir do ser na noite aberta.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

06
Jul
11

As nascentes da ternura

1

No espaço de um relâmpago

os olhos reflectem os navios.

 

2

O silêncio brilha acariciado.

 

3

O silêncio é de todos os rumores

o mais próximo da nascente.

 

4

Só água era, e sem memória.

 

5

Claridade sem repouso, ó claridade,

aguda nos juncos, nas pedras rasa.

 

6

É no ardor dos cardos

que o vento faz a casa.

 

7

Da pedra à cal, do sal à espuma,

amo a pobreza e a brancura.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

28
Fev
11

Escuto o silêncio

Escuto o silêncio: em Abril

os dias são

frágeis, impacientes e amargos;

os passos

miúdos dos teus dezasseis anos

perdem-se nas ruas, regressam

com restos de sol e chuva

nos sapatos,

invadem o meu domínio de areias

apagadas,

e tudo começa a ser ave

ou lábios, e quer voar.

 

Um rumor cresce lentamente,

oh, lentamente

não cessa de crescer,

um rumor de pálpebras

ou pétalas

sobe de terraço em terraço,

descobre um dia

de cinzas com vestígios de beijos.

 

Um só rumor de sangue

jovem:

dezasseis luas altas,

selvagens, inocentes e alegres,

ferozmente enternecidas;

dezasseis potros

brancos na colina sobre as águas.

 

Como um rio cresce, cresce um rumor;

quero eu dizer,

assim um corpo cresce, assim

as ameixieiras bravas

do jardim,

assim as mãos,

tão cheias de alegria,

tão cheias de abandono.

 

Um rumor de sementes,

de cabelos

ou ervas acabadas de cortar,

um irreal amanhecer de galos

cresce contigo,

na minha noite de quatro muros,

no limiar da minha boca,

onde te demoras a dizer-me adeus.

 

Escreve um rumor: é só silêncio.

In: Ostinato Rigore (1964)

13
Jun
10

Nocturno de veneza

Pergunto se não corre esta secreta

música de tanto olhar a água,

pergunto se não arde

de alegria ou mágoa

este florir de ser na noite aberta.

29
Mar
10

Ó manhã

 

Ó manhã,

manhã,

manhã de setembro,

invade-me os olhos,

inunda-me a boca,

entra pelos poros

do corpo, da alma,

até ser em ti,

sem peso e memória,

um acorde só

do vento e da água,

uma vibração

sem sombra nem mágoa.

24
Nov
09

Cante Jondo

A mão onde pousava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada pousava
do que a noite trazia.
07
Jun
09

Eros Thanatos

1
Ó pureza apaixonadamente minha:
terra toda nas minhas mãos acesa.
 
2
O que sei de ti foi só o vento
a passar nos mastros do verão.
 
3
Um corpo apenas, barco ou rosa,
rumoroso de abelhas ou de espuma.
 
4
Entre lábios e lábios não sabia
se cantava ou nevava ou ardia.
 
5
Amo como as espadas brilham
no ardor indizível do dia.
 
6
Seria a morte esta carícia
onde o desejo era só brisa?
12
Maio
09

Os frutos

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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