Posts Tagged ‘olhar

26
Mar
11

Alguém com nome

Agora vou falar da preguiçosa e fina

névoa entre os olhos e o rio.

Às vezes passava um barco.

Era como um arado lavrando

no meu coração a terra morta.

À proa o vento salgado dos pinhais.

Não sei para onde ia.

Devia haver em qualquer parte

um porto para o seu desassossego,

alguém de olhar molhado no cais

à sua espera. Numa cidade

pequena do Norte. Alguém

com nome, talvez Kai, os lábios

mordidos pelo vento, Kai

Haagen, no porto de Göteborg,

na costa da Suécia. Adeus, adeus.

In: Os Lugares do Lume (1998)

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22
Jan
11

Tu estás onde o olhar começa

Tu estás onde o olhar começa

a doer, reconheço o preguiçoso

rumor de agosto, o carmim do mar.

Fala-me das cigarras, desse estilo

de areia, os pés descalços,

o grão do ar.

In: Matéria Solar (1980)

09
Maio
10

Setembro: que lugar

Setembro: que lugar

para dormir — ou nessas folhas

ardendo pelo chão da tarde.

Como partir, deixar deserta

a casa errante

e diminuta do olhar?

A que nos resta.

13
Out
09

Toar um corpo

Toar um corpo
e o ar
e a língua da neve.
 
Toar a erva
mortal e verde
de cinco noites
e ao mar.
 
Um corpo nu.
E as praias fustigadas
pelo sol e pelo olhar.
13
Set
09

Também, também o pulso

Também, também o pulso,
também o pulso arde, e morre
a luz na pele;
 
arde com rumor de amêndoa
dentro do caroço,
de criança no escuro;
 
será por setembro, quando a água
da neve ainda não conhece
a boca dos poços;
 
quando a frágil alegria do olhar
quebra na sombra
o seu azul, o seu aroma.
30
Ago
09

Nesses lugares

Nesses lugares,
nesses lugares onde o ar
perde a mão,
os meus amigos começam a morrer.
 
Falar tornou-se insuportável. 
Falar dessa luz queimada.
deserta.

Que fazer desta boca, 
do olhar,
tão perto outrora de ser música?
13
Maio
09

De que país regressas?

De que país regressas?
De que mar ou regaço
onde o desejo respira devagar?
Fala, diz ainda a palavra
que faça do silêncio a casa
ou erga a coroa
do lume à altura do olhar.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Outubro 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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