Arquivo de Julho, 2009

29
Jul
09

As gaivotas

Nenhuma palavra acorre hoje para me ajudar a carregar com o dia. Contemplo longamente (ver é agora a minha única paixão) a ave que desenhaste no meu caderno, ferida em pleno voo – quem terá forças para impedi-la de morrer? Outras gaivotas passam quase rente à janela, vai chover. Troco este céu impassível pelas dunas de Fão, agora só na memória. Também aí as gaivotas anunciavam que a luz mudara de direcção, e algumas aproximavam-se tanto do meu rosto que eu chegava a recear que me bicassem os olhos. Elas vêm e vão, o céu está agora mais claro, já não as vejo. Talvez não caia mais que um dedalzinho de água, ou nem isso sequer.

28.2.86

27
Jul
09

A sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurei com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de Janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.
26
Jul
09

Seja isto dito assim

Seja isto dito assim, sem orgulho nem humildade, por não poder imaginar o homem reduzido à lama complacente dos próprios excrementos: para amar queria a terra toda, para morrer bastam-me os flancos do silêncio.

 

In: Memória Doutro Rio (1978)

19
Jul
09

Improviso na madrugada

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
 
(Vontade de ser barco ou de cantar.)
16
Jul
09

Assim seja

A terra é boa, e o corpo
apesar de bastardo
traz consigo pátios
e cavalos. A multiplicação
da luz torna mais limpo o ar,
até mesmo a lebre
salta dos fenos.
Contenta-te com ser, hoje
amanhã
outro dia, esta luz breve.
12
Jul
09

A mão, a terra prometida

A mão, a terra prometida
cada vez mais distante, só a mão
sabe ainda o caminho.
 
Um corpo não é casa da tristeza
e eu sempre pousei à entrada
da pedra do verão.
 
Ó pedra pedra — pedra de alegria.
Exasperada.
09
Jul
09

Atrás da porta

Iluminados pela cor do trigo
os animais caminham para a única
estrela ao seu alcance:
 
a música do pastor, arte ou festa
da sua juventude: estrela
taciturna, talvez morta,
 
ou pão da nossa idade: cama
a dividir com o frio,
canção do vento atrás da porta.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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