Archive for the 'Coração do Dia (1958)' Category

24
Ago
14

Tarde ferida

Que mar a pique

ou luz,

ausente e quente,

na boca tão intensa

que fere a tarde?

 

In: Coração do dia (1958)

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16
Fev
12

Entre março e abril

Que cheiro doce e fresco,

por entre a chuva,

me traz o sol,

me traz o rosto,

entre março e abril,

o rosto que foi meu,

o único

que foi afago e festa e primavera?

 

Oh cheiro puro e só da terra!

Não das mimosas,

que já tinham florido

no meio dos pinheiros;

não dos lilases,

pois era cedo ainda

para mostrarem

o coração às rosas;

mas das tímidas, dóceis flores

de cor difícil,

entre limão e vinho,

entre marfim e mel,

abertas no canteiro junto ao tanque.

 

Frésias,

ó pura memória

de ter cantado –

pálidas, fragrantes,

entre chuva e sol

e chuva

– que mãos vos colhem,

agora que estão mortas

as mãos que foram minhas?

 

In: Coração do Dia (1958)

19
Fev
11

Canto rouco

Antes que perca a memória

das pedras do adro,

antes do corpo ser

um só e quebrado

ramo sem água,

devolvei-me o canto

rouco

e desamparado

do harmónio na noite.

Mãe!,

desamparado na noite.

In: Coração do Dia (1958)

26
Dez
09

Lágrima

Dos olhos me cais,
redonda formosura.
Quase fruto ou lua,
cais desamparada.
Regressas à água
mais pura do dia,
obscuro alimento
de altas açucenas.
Breve arquitectura
da melancolia.
Lágrima, apenas.
16
Abr
09

Da memória

Branco, branco e orvalhado,

o tempo das crianças e dos álamos.

06
Out
08

Lisboa

Alguém diz com lentidão:

«Lisboa, sabes…»

Eu sei. É uma rapariga

descalça e leve,

um vento súbito e claro

nos cabelos,            

algumas rugas finas

a espreitar-me os olhos,

a solidão aberta

nos lábios e nos dedos,

descendo degraus

e degraus

e degraus até ao rio.

 

Eu sei. E tu, sabias?

29
Ago
08

Introdução ao canto

Ergue-te de mim,

substância pura do meu canto.

Luz terrestre, fragância.

Ergue-te, jasmim.

 

Ergue-te, e aquece

a cal e a pedra,

as mãos e a alma.

Inunda, reina, amanhece.

 

Ao menos tu sê ave,

primavera excessiva.

Ergue-te de mim:

canta, delira, arde.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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