Posts Tagged ‘Crianças

04
Dez
11

Velho, velho, velho

Velho, velho, velho

chegou o Inverno.

 

Vem de sobretudo,

vem de cachecol,

o chão por onde passa

parece um lençol.

 

Esqueceu as luvas

perto do fogão,

quando as procurou,

roubara-as o cão.

 

Com medo do frio,

encostou-se a nós:

dai-lhe café quente,

senão perde a voz.

 

Velho, velho, velho

chegou o Inverno.


In: Aquela Nuvem e Outras (1986)

01
Jun
10

Um, dois, três

O Sal da Língua deseja a todos Um Feliz Dia da Criança!

Um, dois, três.

lá vai outra vez

o gato maltês

a correr atrás

da franga pedrês,

talvez a mordesse

apenas no pé,

o sítio ao certo

não sei bem qual é

(quatro, cinco, seis),

ou só lhe arranhasse

a ponta da crista,

e talvez nem isso,

seria só susto,

ou nem sequer mesmo

foi susto nenhum:

sete, oito, nove,

para dez falta um.

08
Mar
10

Abril

Brinca a manhã feliz e descuidada,

como só a manhã pode brincar,

nas curvas longas desta estrada

onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais

coroado de rosas e de cio,

e num salto brusco, sem deixar sinais,

rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,

carregados de espanto e de alegria,

e atira pedras às curvas mais distantes

 – onde a voz dos ciganos se perdia.

09
Dez
09

A tarde sacudiu as suas crinas

A tarde sacudiu as suas crinas,
as crianças demoram-se nos espelhos,
um amigo começa no verão,
 no íntimo despir das suas luzes.
23
Abr
09

A formiga

Sete palmos, sete metros,

anda a formiga por dia

(sete palmos a correr,

sete metros devagar),

só para lamber o mel

que lentamente escorria

quer da boca quer do pão,

quer dos dedos do Miguel.

 

Eugénio de Andrade por Graça Martins

Eugénio de Andrade por Graça Martins

16
Abr
09

Da memória

Branco, branco e orvalhado,

o tempo das crianças e dos álamos.

23
Mar
09

Praça de Malá Strana

Gosto destes pombos, destas crianças.

A eternidade não pode ser senão assim:

pombos e crianças a fazerem

da luz incomparável da manhã

o lugar inocente do poema.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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