Posts Tagged ‘Março

05
Mar
12

Não, não é ainda a inquieta

Não, não é ainda a inquieta

luz de março

à proa de um sorriso,

nem a gloriosa ascensão do trigo,

 

a seda de uma andorinha roçando

o ombro nu,

o pequeno e solitário rio adormecido

na garganta;

 

não, nem o cheiro acidulado e bom

do corpo, depois do amor,

pelas ruas a caminho do mar,

ou o despenhado silêncio

 

da pequena praça,

como um barco, o sorriso à proa;

 

não, é só um olhar.

 

In: Branco no Branco (1984)

 

 

16
Fev
12

Entre março e abril

Que cheiro doce e fresco,

por entre a chuva,

me traz o sol,

me traz o rosto,

entre março e abril,

o rosto que foi meu,

o único

que foi afago e festa e primavera?

 

Oh cheiro puro e só da terra!

Não das mimosas,

que já tinham florido

no meio dos pinheiros;

não dos lilases,

pois era cedo ainda

para mostrarem

o coração às rosas;

mas das tímidas, dóceis flores

de cor difícil,

entre limão e vinho,

entre marfim e mel,

abertas no canteiro junto ao tanque.

 

Frésias,

ó pura memória

de ter cantado –

pálidas, fragrantes,

entre chuva e sol

e chuva

– que mãos vos colhem,

agora que estão mortas

as mãos que foram minhas?

 

In: Coração do Dia (1958)

08
Maio
11

Fidelidade em Armando Alves

Ele veio da planície, como se sabe. Veio da ondulação das searas, ininterrupta, até quando não há vento. Só muitos, muitos anos depois descobrirá dentro de si outra ondulação – a do mar, agora a dois passos de casa. Mar que nos entra pela varanda com o verão, ou podemos encontrar à porta, como se nos esperasse para uma carícia. É esta a surpresa que nos traz hoje esta pintura – o mar, o mar, o mar, de vaga em vaga. À ondulação do trigo, de que ainda há vestígios em várias telas, sucedeu a ondulação da espuma. Os ocres queimados cederam o passo aos azuis gloriosos. Os amarelos sombrios abriram-se à rebentação da cal. Espuma ou esperma, tanto faz – estas golfadas têm um destino: emprenhar a terra.

Continuo a pintar o Alentejo, diz-me ele. Mas agora um Alentejo de água, digo-lhe eu. Gosto desta fidelidade. A força de um artista vem-lhe do conhecimento dos seus limites. E os limites do homem são os da sua paixão, essa desmesura. Ser homem resolutamente, exigia Kierkegaard, o Desesperado. Não é tarefa fácil. Com júbilo no coração ou com um corpo ferido aos ombros, ser homem é difícil. Fiel à sua paixão. Resolutamente. Paixão à terra, a este horizonte raso, ondulante, entrando em espasmos sucessivos pelo corpo do mundo; indiferente a esse perverso refinamento que é apenas comprazimento na inteligência, e suas ligações aos círculos do poder, ou do mercado, de tão funestos frutos. Paixão ao corpo, à irradiação do corpo, à sensualidade magnificente do corpo, que transforma as formas da vida, mesmo as mais humildes, em apetência de luz, de mais luz ainda, última súplica do olhar.

Um dia ele conhecerá outra ondulação, a do silêncio. E será a perfeição.

In: À sombra da memória (1993)

Armando Alves, Paisagem (2009) - Óleo sobre tela (45 cm x 50 cm)

07
Out
09

Chuva de Março

A chuva detrás dos vidros,
a chuva de março,
acesa até aos lábios, dança.
Mas a maravilha
não é a primavera chegar assim
como se não fora nada,
a maravilha são os versos
de Williams
sobre a rasteira e amarela
flor da mostarda.
14
Abr
09

Outro exemplo: Carlos de Oliveira

Os rumores vinham de costas, a rua entrava pela casa, apesar de tão alta. Desviava então a vista fatigada do papel, a palavra exacta era lenta a chegar, quando chegava. O trabalho de horas acabara por reduzir-se a três ou quatro linhas, ainda por cima Cesário insinuara-se no seu apuro. Aproximou-se da janela, a luz era ainda amarga naquele fim de Março. O rio lá ao fundo ia frio, apesar disso as águas chamavam-no. É a música inominável da poesia, pensou, um dia terei de responder àquele apelo. Voltou ao papel, não podia perder o resto da manhã. O que se expõe na palavra é um corpo mortal, mas são essas interrogações que resistem à morte. Amarfanhou a folha, atirou-a fora, exasperado. Pegou na bengala, desceu à rua. Março ia frio, não há dúvida. (16.5.85)

30
Mar
09

A luz do chão

Sem nenhuma razão a voz rompia,

a rasteirinha voz tão rente à vida

que se confunde com a luz do chão,

a luz de Março rastejando ainda.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Agosto 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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