Archive for the 'Os Sulcos da Sede (2001)' Category

10
Abr
14

Havia vento

Era um mês incerto, havia vento,

eu não teria nascido ainda,

ou já teria morrido.

A fronteira entre luz e sombra

era muito difusa. Então

estranhamente o sol pousou

naquele corpo. Corpo que nunca

vira despido, que cheirava

a maçãs maduras.,

com brilhos que desciam

às negras sementes da vida.

Estranhamente o sol demorou-se

nos seus ombros. Um último

brilho, ou suspiro, desprendeu-se.

O ar tremia – apesar disso eu era feliz,

tinha dez ou mil anos, já não sei.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

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14
Jan
13

Alguns dias de agosto

Não tardará a chegar ao fim

este agosto que te viu passar com a luz

a teus pés. Somos eternos, dizias.

Eu pensava antes na danação

da alma ao faltar-lhe o alimento

que lhe trazias. Agora a cidade vive

do peso incomensuravelmente morto

dos dias sem a tua presença. Deixo

a mão correr sobre o papel tentando

captar o eco de uma palavra,

um sinal de quem em qualquer parte

cintila, e confia ao vento o segredo

da nossa tão precária eternidade.


In: Os Sulcos da Sede (2001)

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28
Abr
12

Memória dos Dias

Vais e vens na memória dos dias

onde o amor

cercou a casa de luz matutina.

Às vezes sabíamos de ti pelo aroma

das glicínias escorrendo no muro,

outras pelo rumor do verão rente

ao oiro velho dos plátanos.

Vais e vens. E quando regressas

é o teu cão o primeiro a sabê-lo.

Ao ouvi-lo latir, sabíamos que contigo

também o amor chegara a casa.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

11
Out
11

Outros ritmos, outros modos

Não é o mar, não é o vento, é o sol

que me dói da cintura aos sapatos.

Sol de fins de Julho,

ou de Agosto a prumo: finas

agulhas de aço.

É o sol destes dias, aceso

na folhagem.

Bebendo a minha água.

Colado à minha pele.

É doutro território, doutro areal.

Tem outros ritmos, outros modos,

outros vagares para roer

a cal, morder-me os olhos.

Até quando cega canta ao arder.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

06
Set
11

Schumann por Horowitz

São herança camponesa, as mãos.

Estas pequenas mãos, de geração

em geração, vêm de muito longe:

amassaram a cal, abriram sulcos

frementes na terra negra, semearam

e colheram, ordenharam cabras,

pegaram em forquilhas para limpar

currais: de sol a sol nenhum

trabalho lhes foi alheio.

Agora são assim: frágeis, delicadas,

nascidas para dar corpo a sons

que, noutras épocas, outras mãos

se obstinaram em escrever como

se escrevessem a própria vida.

Ao vê-las, ninguém diria que

a terra corria no seu sangue.

São mãos envelhecidas, mas no teclado

são capazes do inacreditável: juntar

nos mesmos compassos o rumor

dos bosques em setembro e os risos

infantis a caminho do mar.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

18
Jul
11

Herança

É a minha herança: o sorriso,

o azul de uma pedra branca.

Posso juntar-lhe, ao acaso da memória,

um ramo de madressilva inclinado

para as abelhas que metodicamente fazem

do outono o lugar preferido do verão,

um melro que deixou o jardim público

para fazer ninho num poema meu,

um barco chamado Cavalinho na Chuva

à espera de reparação no molhe da Foz.

Deve haver mais alguma coisa,

não serei tão pobre, cometemos sempre

a injustiça de não referir, por pudor,

coisas mais íntimas: um verso de Safo

traduzido por Quasimodo, a mão

que por instantes nos pousou no joelho

e logo voou para muito longe,

as cadências do coração

teimoso em repetir que não envelheceu.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

30
Mar
11

À boca do cântaro

Caminha sílaba a sílaba

como a fonte

que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.

À audácia dos jovens, à timidez

dos que já o não são, mata a sede.

Aos que tropeçam na falta

de amor, aos que mordem as lágrimas

em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris

a frescura da pedra. Não deixes

o medo multiplicar as garras.

Sílaba a sílaba

caminha até ao cântaro

vazio. – Tão cheio agora!

In: Os sulcos da Sede (2001)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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