Archive for the 'Pequeno Formato (1997)' Category

16
Abr
12

Paisagem

A névoa que desde manhã fechava

as portas todas ao rio foi-se embora.

A luz é fria: esta é agora

a minha terra, o outono.

Todas as terras são afinal as mesmas

folhas cobrindo a relva, às vezes

cintilando quando o sol rasga a névoa.

 

In:  Pequeno Formato (1997)

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10
Jun
11

A Jorge Peixinho

Faltava-te essa música ainda,

a do silêncio, fria de tão nua,

agora para sempre e sempre tua.

 

In: Pequeno Formato (1997)

 
Mais sobre Jorge Peixinho...

Compositor, pianista, professor, maestro, conferencista, ensaísta, Jorge Manuel Rosado Peixinho (1940-1995) é uma referência incontornável na música contemporânea em Portugal na segunda metade do século XX, bem como na divulgação internacional da música portuguesa. Nascido em 1940, no Montijo, frequentou o Conservatório de Lisboa, onde concluiu os cursos de Piano e de Composição. Posteriormente, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, estudou em Roma com Boris Porena e Goffredo Petrassi, na Academia de Santa Cecília, onde obteve o diploma de aperfeiçoamento em Composição. Trabalhou ainda com Luigi Nono, em Veneza e com Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen na Academia de Música de Basileia. Peixinho participou em vários festivais de música contemporânea, entre os quais se destacam os de Royan (França), Gaudeamus (Holanda), Madrid, Vigo (Espanha), Veneza, Bayreuth, Bucareste, Buenos Aires, Maracaibo (Venezuela), São João del Rei, Santos e Curitiba (Brasil), Alexandria, entre outros. Colaborou regularmente nos Encontros Gulbenkian de Música Contemporânea, em Lisboa. Obteve vários prémios de composição e foi distinguido pela Secretaria de Estado da Cultura com a Medalha de Mérito Cultural. “Coração Habitado” foi composta por Jorge Peixinho em 1966 e estreada no ano seguinte no Festival de Dartington, Inglaterra. Coração habitado utiliza uma escrita vocal vanguardista, aproveitando não apenas as capacidades tradicionais dos cantores líricos como também as virtualidades expressivas da voz, em múltiplas consoantes e vogais, de um texto feito de excertos retirados de um ciclo de poemas de Eugénio de Andrade, Até Amanhã. A voz não canta melodias mas a própria expressividade latente, integrando-se como um instrumento extraordinário num conjunto de três outros, também eles campos surpreendentemente férteis de sons, harmonias e timbres. Jorge Peixinho era amigo de longa data do poeta Eugénio de Andrade que, à data de sua morte, lhe dedica este pequeno epitáfio publicado em Pequeno Formato. (Fonte: www.lamadeguido.com/book4008.pdf)

 

06
Out
10

Sobre o mar

Sobre o mar

a mão escreve. Como se escrever

servisse para diminuir o erro.

Escreve

num país atravessado a prumo

pelo delírio.

País despossuído. O voo rasteiro

e curto. De muro em muro.

 

In: Pequeno Formato (1997)

24
Dez
09

Ao fim da tarde

Ninguém esperava ver o mar naquele dia
mas era o mar
que estava ali à porta naqueles olhos.

Um feliz Natal para todos!
20
Set
09

Como no início

É a noite por fim, podes tocá-la.
Também a mão, a pequena e febril
música da mão, aí está a iluminá-la.
Agora vê-se melhor o caminho.
29
Maio
09

Que trabalho

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.

Aproveito o mote deste poema de Eugénio de Andrade, a propósito dos trabalhos da língua, da língua artística, da criação poética, para apresentar um espaço bastante original e que se debruça precisamente sobre os processos da criação da Poesia, em todas as suas vertentes. É o projecto Vidráguas, da autoria da poetisa brasileira Carmen Silvia Presotto e do fotógrafo também brasileiro Ricardo Hegenbart. Agradeço a Carmen a oportunidade que deu ao Sal da Língua de estar representado no seu espaço Vidráguas e fico bastante feliz por poder dar a minha contribuição para a divulgação da língua de Eugénio. Em relação ao convite, Carmen, só posso dizer que não está esquecido. Um abraço deste lado do mundo, geograficamente falando, pois o milagre da poesia é tornarmo-nos cúmplices nas descobertas e nos sentimentos.
03
Mar
09

A pequena vaga

Mar de pequena vaga e céu azul:

a irrupção das frésias na manhã

faz destas ruas um jardim do sul.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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