Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.
Artur Santos Silva
26.06.2005
Eugénio de Andrade é inegavelmente um dos primeiros entre aqueles que fizeram a literatura de Portugal no século XX. Eugénio e Sophia de Mello Breyner são os poetas do meu tempo que mais me marcaram. Eugénio de Andrade foi, ainda, um notável tradutor de poesia e é autor das mais belas descrições sobre o Porto de hoje, cidade onde escolheu viver desde 1950.
A Eugénio devemos, também, excelentes colectâneas de poesia de Pessoa e de Camões, a antologia de poesia portuguesa de que mais gosto e a organização do “Daqui Houve Nome Portugal”, obra que reúne excelentes textos, pinturas e fotografias sobre o Porto, em desafio duas vezes assumido pelo grande editor José da Cruz Santos.
Na poesia de Eugénio de Andrade impressiona-me, em especial, a pureza, a luminosidade e a transparência dos seus versos, bem como a profundidade, a depuração e o rigor da sua palavra. Os seus poemas não têm nada a mais e ditos por ele são ainda mais belos.
Tudo (“os seres e as coisas“) ganha uma outra dimensão na sua escrita: os frutos, as árvores e as flores – os jacarandás do Largo das Virtudes e do Jardim de S. Lázaro (“um jacarandá em flor é a anunciação do paraíso“), a magnólia da Praça da Liberdade, as mimosas da encosta de Gaia – os gatos, as gaivotas, as pombas, os pardais, as crianças e os jovens.
Conheci-o pessoalmente no final dos anos 60, na casa de Agustina e Alberto Luís. Discreto, austero – “sem o luxo que degrada a vida” -, tinha uma relação de grande afectividade e ternura com as pessoas de quem gostava. De grande lealdade e generosidade para com os seus amigos; como dizia, “a generosidade é outro nome da inteligência“. Apreciava nos outros a exigência de espírito e o rigor – “eu gosto de gente capaz de fazer da sua vida a mais bela das suas obras“.
Merecia bem não ter tido, como disse Arnaldo Saraiva no seu funeral, ” uma morte tão sofrida como a de Cristo, apesar de não ter tido uma cruz“.
Gostaria, em especial, de recordar o que escreveu sobre “o ritmo, a cor, a luz” do Porto e de que me sinto perto quando apreciamos os pontos fortes e as fragilidades da cidade e da sua gente.
“Não sei se o Porto é uma cidade de trabalho… Sei que é uma cidade sem imaginação para a alegria. O trabalho é aqui muito triste – pois fora dele não há mais nada. É mesmo por não haver mais nada que se tem a impressão de toda a cidade viver exclusivamente para o trabalho...” “Em nome da integridade das suas tradições, a cidade antipatiza com toda a modernidade, se ganha em carácter, que o tem, e bem vincado, perde em espírito civilizado. Eis o que penso, e não se diga que não gosto do Porto – como qualquer grande amor, o meu, por esta cidade, é infeliz.”
“Era um burgo pobre, sujo, reles até – mas gostaria tanto de lhe pôr um diadema na cabeça.”
“Há quem goste muito do Porto e há quem o deteste. Queria falar desta cidade tão masculina sem nenhum peso de erudição que é coisa tão inimiga da poesia.”
“Há no Porto, à beira do Outono, manhãs de uma perfeição total. A vinha virgem, com as folhas escarlates…”, “os castanheiros-da-Índia abrem os ouriços e deixam cair os frutos de pele lustrosa e orvalhada; a madressilva guarda ainda algumas flores, essas últimas onde se refugia o frágil aroma da eternidade.” “Eu queria falar destes manhãs de uma beleza que nos atravessa de mil maneiras, e dizer delas que, tal como o amor, não têm nome, nem idade: serão apenas música…“
“Nevoeiro
Viera do rio pela mão duma criança.
a cidade é agora de porcelana branca.
olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da madressilva
no muro do quintal,
dos medronhos que colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem mandavas
palavras inocentes
que regressavam a sangrar,
lembras-te da tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados de alegria.”
O grande poeta partiu. Temos agora que mostrar ter merecido a sua amizade, valorizar o seu exemplo, contribuindo para que a Fundação Eugénio de Andrade se assuma como uma instituição de excelência, quer na educação da sensibilidade de todos nós, em especial dos mais novos, quer na formação de professores para que saibam ensinar a sua obra. Finalmente, impõe-se divulgar ainda melhor a notável, extensa e diversificada obra de Eugénio de Andrade.
Só assim “a minha morte é tão natural como a minha vida”.