Talvez, talvez sejam os últimos dias. Se for assim, são um esplendor. Apesar dos aviões da Nato despejarem bombas e bombas no Kosovo, a perfeição mora neste muro branco onde o escarlate da flor da buganvília sobe ao encontro da luz fresca da manhã de junho. A beleza (não há outra palavra para dizê-lo), a beleza desta manhã é terrível: persiste, domina – apesar dos aviões, mesmo com bombas a cair e crianças a morrer.
20
Nov
09
Manhã de Junho
18
Nov
09
Prato de figos
Também a poesia é filha da necessidade – esta que me chega um pouco já fora do tempo, deixou de ser sumarenta alegria do sol sobre a boca; esta, perdida a húmida e nacarada pele adolescente, mais parece um desses figos secos ao sol de muitos dias que no inverno sempre se encontram postos num prato para comeres junto ao fogo.
15
Nov
09
Gatos
Gato dos quintais Gato dos portões, Gato dos quartéis Gato das pensões. Vêm da Índia, da Pérsia, De Ninive, Alexandria. Vêm do lado da noite, Do oiro e rosa do dia. Gato das duquesas, Gato das meninas, Gato das viúvas, Gato das ruínas. Gatos e gatos e gatos. Arre, que já estamos fartos! Um bom domingo para todas as crianças!!! Para este Natal: www.unicef.pt
11
Nov
09
Numa fotografia
Não sejas como a névoa, nem quimera. Demora-te, demora-te assim: faz do olhar tempo sem tempo, espaço limpo – do deserto ou do mar.
08
Nov
09
Estou aqui
Estou aqui sentado – ali o mar, as palmeiras. O leite fresco, o pão na mesa. O gesto sempre igual da luz, o mesmo olhar da ave. Existe uma secreta harmonia entre a luz e o mar, a mesma provavelmente entre a palmeira e a ave, o leite e o pão. E com a palavra, o seu voo a prumo, com a palavra qual é a relação?
05
Nov
09
Lume de Inverno
O lume. O lume rasteiro. O lume ainda. Vem de tão longe. Da casa térrea sobre a eira, casa onde qualquer coisa pequena pulsava: um coração, a água no cântaro, o trigo a crescer. Era tão pequeno que nem sabia como pedir uma laranja, um pouco de pão. Menos ainda, um beijo. Parecia só saber estender as mãos para aquele sol rasteiro e para o olhar que dos sortilégios do lume o defendia.
02
Nov
09
A casa
Nem sempre a luz vem assim: salta como um rapaz muro após muro, entra pela janela. O brilho dos medronhos chega ao fim: extrema ponta dos dias, aproximação da água. Dia feito para a música, dizias; ou para a dança, acrescentavas: ritmo puro, sustido. De muro em muro, sem nenhum peso, entra pela casa. Agora é ela que dorme comigo.
…viveu em tanta pobreza, que se não tivera um jau, chamado António, que da Índia trouxe, que de noite pedia esmola para o ajudar a sustentar, não pudera aturar a vida. Como se viu, tanto que o jau morreu, não durará ele muitos meses. Pedro de Mariz Devias estar aqui rente aos meus lábios para dividir comigo esta amargura dos meus dias partidos um a um — eu vi a terra limpa no teu rosto, só no teu rosto e nunca em mais nenhum. 27-12-79
25
Out
09
Improviso para uma fonte
Boca da terra. Ao longe pressentida mas discreta. A quem te procura entregas-te aberta.
Neste "O lugar dos amigos" será dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio - os seus colegas e amigos. Começaremos então pelo amigo Eduardo Lourenço. O texto chama-se "Adeus a Eugénio" e foi publicado no Jornal Público a 14 de Junho de 2005. A morte foi-lhe póstuma. Como para sublinhar que não lhe dizia respeito. Realíssima foi a sua longa agonia branca, o estar assistindo à sua vida sem poder fazer nada por ela. Nem nós, seus amigos, vendo o mais solar dos poetas a braços com esse crepúsculo sem manhã. Vivo e consciente, contemplou a última metamorfose, da sua própria margem, aquela que uma luminosa vida de versos lhe construíra como a única barca imune ao negro esquecimento. Aí permanecia o deus verde que sonhara o seu destino como quem dança. Sem anjos e sem pecado. Viera para inventar, cantando-se e encantando-se com o mundo, o seu próprio paraíso. Do reino das sombras, só soube da ausência da luz original que elas são. No cristal das palavras talhou o corpo dos poemas onde morria e ressuscitava. Todas lhe eram caras mas mais aquelas que precisavam dele para serem saboreadas pelos outros, as mais discretas, as mais duras no seu silêncio, as que tocadas por ele se convertiam em chama perpétua. As coisas mesmas, as mais banais, foram os seus símbolos. Elas lhe bastaram para deixar na memória poética da nossa língua aquela "espécie de música" a que Óscar Lopes aludiu. E é o sonho inalcançável de todo o poema. No círculo encantado que de Bernandim conduz a Pessanha, Eugénio instalou a sua tenda. Agora pode conversar de igual a igual com os seus astros tutelares. E concentrar-se inteiro na haste da melancolia que evocou para nós. Ave solar em plena luz. Vence, 13 de Junho de 2005 Eduardo Lourenço