A mão, a terra prometida cada vez mais distante, só a mão sabe ainda o caminho. Um corpo não é casa da tristeza e eu sempre pousei à entrada da pedra do verão. Ó pedra pedra — pedra de alegria. Exasperada.
12
Jul
09
A mão, a terra prometida
09
Jul
09
Atrás da porta
Iluminados pela cor do trigo os animais caminham para a única estrela ao seu alcance: a música do pastor, arte ou festa da sua juventude: estrela taciturna, talvez morta, ou pão da nossa idade: cama a dividir com o frio, canção do vento atrás da porta.
06
Jul
09
Em memória de Chico Mendes
Chegam notícias do Brasil, o Chico Mendes foi assassinado, a morte enrola-se agora nos primeiros frios, nem sequer a tristeza tem sentido, a bola continua em órbita, um dia estoira, o universo ficará mais limpo. 3-01-89 Mais sobre Chico Mendes… Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como "Chico Mendes" (15 Dezembro de 1944 — Xapuri, 22 Dezembro de 1988), foi um seringueiro, sindicalista e activista ambiental brasileiro. Ficou conhecido internacionalmente pela luta que travou pela preservação da Floresta Amazónica e que conduziu ao seu assassinato (Mais sobre Chico Mendes: http://www.chicomendes.org/)
05
Jul
09
Retrato
No teu rosto começa a madrugada. Luz abrindo, de rosa em rosa, transparente e molhada. Melodia distante mas segura; irrompendo da terra, quente, redonda, madura. Mar imenso, praia deserta, horizontal e calma. Sabor agreste. Rosto da minha alma.
Notícias da Fundação: Na sede da Fundação Eugénio de Andrade vai ser apresentado, no próximo sábado, dia 11 de Julho, pelas 18h30, o primeiro livro, Delírio Húngaro, do jovem poeta Nuno Brito. Publicado pela editora que tem o nome de Edita-me, o livro será apresentado por Arnaldo Saraiva e por Manaíra Aires. A entrada é livre.
25
Jun
09
A manhã parada
A manhã parada. O azul. A fundura da pupila. Não é ainda a sede, a matilha, a febre. O tronco nu — a luz vacila.
22
Jun
09
Eugénio & Sophia
Hoje trago Sophia para a companhia de Eugénio. Cinco anos depois da sua morte, o Jornal Público, na edição do passado domingo, dá-nos conta de alguns excertos de diários, poemas e cartas do espólio de Sophia de Mello Breyner, presente no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, entre histórias contadas na primeira pessoa por dois dos seus filhos. Do nosso querido Eugénio de Andrade, para Sophia, há cartas, postais, poemas e textos, como aquele que diz: "De repente ouvia-se uma voz: Onde está a Sophia? Não havia Sophia, mas o ar era fresco como se atravessássemos uma alameda de tílias". Do mundo de Sophia resolvi trazer um poema inédito apresentado nesse artigo do Público, um poema escrito a tinta permanente azul, num pequenino papel, com data de 31 de Agosto de 1943. O seu nome - Inocência e possibilidade: As imagens eram próximas Como coladas sobre os olhos O que nos dava um rosto justo e liso Os gestos circulavam sem choque nem ruído As estrelas eram maduras como frutos E os homens eram bons sem dar por isso.
18
Jun
09
Ouço correr a noite pelos sulcos
Ouço correr a noite pelos sulcos do rosto – dir-se-ia que me chama, que subitamente me acaricia, a mim, que nem sequer sei ainda como juntar as sílabas do silêncio e sobre elas adormecer.
15
Jun
09
O silêncio
Dai-me outro verão nem que seja de rastos, um verão onde sinta o rastejar do silêncio, a secura do silêncio, a lâmina acerada do silêncio. Dai-me outro verão nem que fique à mercê da sede. Para mais uma canção.
Eugénio voou com as aves há precisamente quatro anos. Os livros. A sua cálida, terna, serena pele. Amorosa companhia. Dispostos sempre a partilhar o sol das suas águas. Tão dóceis, tão calados, tão leais. Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada melancolia. Amados como nenhuns outros companheiros da alma. Tão musicais no fluvial e transbordante ardor de cada dia. (Num exemplar das Geórgicas - In Ofício de Paciência)