Arquivo da categoria 'Os Lugares do Lume (1998)'

02
Nov
09

A casa

Nem sempre a luz vem assim:
salta como um rapaz muro após muro,
entra pela janela.

O brilho dos medronhos chega ao fim:
extrema ponta dos dias,
aproximação da água.

Dia feito para a música, dizias;
ou para a dança, acrescentavas:
ritmo puro, sustido.

De muro em muro, sem nenhum peso,
entra pela casa.
Agora é ela que dorme comigo.
17
Ago
09

Fim de verão

Talvez nem seja um tordo. Um pássaro
cantava. Seria o último
desse verão. A própria luz
 
não ajudava: não era barco
de manhã nem brisa ao fim da tarde.
Talvez o anjo do poema
 
pudesse em seu lugar subir aos ramos
e cantar. Mas os anjos
são tão distraídos! Deles não há
 
nada a esperar, a não ser fogo
de palha. Talvez nem seja um tordo.
O seu canto, só vibração do ar.
07
Mai
09

Dai-me um nome

Dai-me um nome, um só nome
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.
 
Um só nome para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,
 
chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.
 
Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar
possa entrar numa canção.
03
Abr
09

A figueira

Este poema começa no verão,

os ramos da figueira a rasar

a terra convidavam a estender-me

à sua sombra. Nela

me refugiava como num rio.

A mãe ralhava: A sombra

da figueira é maligna, dizia.

Eu não acreditava, sabia bem

como cintilavam maduros e abertos

seus frutos aos dentes matinais.

Ali esperei por essas coisas

reservadas aos sonhos. Uma flauta

longínqua tocava numa écloga

apenas lida. A poesia roçava-

-me o corpo desperto até ao osso,

procurava-me com tal evidência

que eu sofria por não poder dar-lhe

figura: pernas, braços, olhos, boca.

Mas naquele céu verde de Agosto

apenas me roçava, e partia.

16
Mar
09

Anunciação da primavera

São as primeiras frésias do ano:

vieram da Holanda

para que a primavera entrasse

em Janeiro pela casa dentro.

Com o seu aroma e o vento solar

farei o lume,

farei o lume onde aquecer as mãos

e de chama em chama regressar

às oliveiras do Sul lentas e claras,

ao azul estendido nas pedras nuas

da Cantareira,

aos pardais ardendo nos ramos

do crepúsculo com a luz derradeira.

02
Fev
09

Canção do passeio alegre

No inverno o vento está como deus

em toda a parte: na cabeleira

verde dos cometas, no extenso

e turbulento sono dos rapazes,

nos cegos fundamentos da alegria.

Peço-lhe que tenha piedade,

que seja amável com os que não dormem

debaixo de telha, que sorria a quem

regressa a casa a desoras – a boca

amarga do fremento da tristeza.

À semelhança de deus, o vento

dança indiferente nas areias.

26
Jan
09

Assim despido

Rosto despido, magra fonte

dos dias – assim começa a breve

fala que escuto

 

vinda de longe, assim o nome

desse cristal,

o tão amado e perdido

 

olhar; assim do prado branco

as águas de junho

ou de setembro descem ao mar;

 

assim as dunas onde as aves

pousam leve ou nos lábios

o canto arde;

 

assim a neve.

23
Dez
08

A pequena pátria

A pequena pátria; a do pão;

a da água;

a da ternura, tanta vez

envergonhada;

a de nenhum orgulho nem humildade;

a que não cercava de muros

o jardim nem roubava

aos olhos o desajeitado voo

das cegonhas; a do cheiro quente

e acidulado da urina

dos cavalos; a dos amieiros

à sombra onde aprendi

que o sexo se compartilhava;

a pequena pátria da alma e do estrume

suculento morno mole;

a da flor múltipla e tão amada

do girassol.

 

Estou de partida para outros mares, para reforçar o corpo e o espírito e, por isso, o Sal da Língua cristaliza durante as próximas três semanas. Um óptimo Natal para todos.

10
Dez
08

Cantus firmus

O vento sacode as palmeiras.

Não tardará a chuva.

Tem chovido tanto nos meus versos

que a chuva se tornou insuportável.

 

Apesar disso, os pássaros cantam.

São os melros de Messiaen.

Mesmo envelhecido

também o coração canta.

 

Acode-me aos lábios um nome.

É de noite: quando

a música cessa, o silêncio

como estrela brilha na boca.

 

Tenho pena das palmeiras

à chuva noite e dia, ao vento, ao sol.

Frente ao peso do mundo

são orgulhosamente lugar de amor.

15
Out
08

Às vezes

Às vezes oiço morrer o silêncio –

é o mar que se afasta,

um ramo que partiu com

o insuportável peso

 

do mundo sobre o verde das suas

folhas, o silvo da lua

nova rasgando o chão das águas

estremunhadas, a rouca

 

respiração da casa

sufocada pelo glacial

ar das ruas, os passos de Abril

descendo os últimos degraus.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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