Nem sempre a luz vem assim: salta como um rapaz muro após muro, entra pela janela. O brilho dos medronhos chega ao fim: extrema ponta dos dias, aproximação da água. Dia feito para a música, dizias; ou para a dança, acrescentavas: ritmo puro, sustido. De muro em muro, sem nenhum peso, entra pela casa. Agora é ela que dorme comigo.
Arquivo da categoria 'Os Lugares do Lume (1998)'
A casa
Fim de verão
Talvez nem seja um tordo. Um pássaro cantava. Seria o último desse verão. A própria luz não ajudava: não era barco de manhã nem brisa ao fim da tarde. Talvez o anjo do poema pudesse em seu lugar subir aos ramos e cantar. Mas os anjos são tão distraídos! Deles não há nada a esperar, a não ser fogo de palha. Talvez nem seja um tordo. O seu canto, só vibração do ar.
Dai-me um nome
Dai-me um nome, um só nome para tudo quanto voa: cardo pedra romã. Um só nome para o desejo ser na manhã corola de cal, cotovia, chama subindo baixando até ser incêndio de amor rente ao chão. Um só nome para que tudo, rosa excremento mar possa entrar numa canção.
A figueira
Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidavam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, sabia bem
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
-me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde de Agosto
apenas me roçava, e partia.
Anunciação da primavera
São as primeiras frésias do ano:
vieram da Holanda
para que a primavera entrasse
em Janeiro pela casa dentro.
Com o seu aroma e o vento solar
farei o lume,
farei o lume onde aquecer as mãos
e de chama em chama regressar
às oliveiras do Sul lentas e claras,
ao azul estendido nas pedras nuas
da Cantareira,
aos pardais ardendo nos ramos
do crepúsculo com a luz derradeira.
Canção do passeio alegre
No inverno o vento está como deus
em toda a parte: na cabeleira
verde dos cometas, no extenso
e turbulento sono dos rapazes,
nos cegos fundamentos da alegria.
Peço-lhe que tenha piedade,
que seja amável com os que não dormem
debaixo de telha, que sorria a quem
regressa a casa a desoras – a boca
amarga do fremento da tristeza.
À semelhança de deus, o vento
dança indiferente nas areias.
Assim despido
Rosto despido, magra fonte
dos dias – assim começa a breve
fala que escuto
vinda de longe, assim o nome
desse cristal,
o tão amado e perdido
olhar; assim do prado branco
as águas de junho
ou de setembro descem ao mar;
assim as dunas onde as aves
pousam leve ou nos lábios
o canto arde;
assim a neve.
A pequena pátria
A pequena pátria; a do pão;
a da água;
a da ternura, tanta vez
envergonhada;
a de nenhum orgulho nem humildade;
a que não cercava de muros
o jardim nem roubava
aos olhos o desajeitado voo
das cegonhas; a do cheiro quente
e acidulado da urina
dos cavalos; a dos amieiros
à sombra onde aprendi
que o sexo se compartilhava;
a pequena pátria da alma e do estrume
suculento morno mole;
a da flor múltipla e tão amada
do girassol.
Estou de partida para outros mares, para reforçar o corpo e o espírito e, por isso, o Sal da Língua cristaliza durante as próximas três semanas. Um óptimo Natal para todos.
Cantus firmus
O vento sacode as palmeiras.
Não tardará a chuva.
Tem chovido tanto nos meus versos
que a chuva se tornou insuportável.
Apesar disso, os pássaros cantam.
São os melros de Messiaen.
Mesmo envelhecido
também o coração canta.
Acode-me aos lábios um nome.
É de noite: quando
a música cessa, o silêncio
como estrela brilha na boca.
Tenho pena das palmeiras
à chuva noite e dia, ao vento, ao sol.
Frente ao peso do mundo
são orgulhosamente lugar de amor.
Às vezes
Às vezes oiço morrer o silêncio –
é o mar que se afasta,
um ramo que partiu com
o insuportável peso
do mundo sobre o verde das suas
folhas, o silvo da lua
nova rasgando o chão das águas
estremunhadas, a rouca
respiração da casa
sufocada pelo glacial
ar das ruas, os passos de Abril
descendo os últimos degraus.